Qual o papel das mulheres brancas num sistema de supremacia branca?

Anin Urasse

Recentemente eu li um livro cujo título é horroroso de tão trágico: “Meu avô teria me executado”. Trata-se da história de Jennifer Teege, uma mulher preta alemã que descobriu ser neta de Amon Goth, um dos carrascos de Hitler. Pra quem assistiu ao filme “A lista de Schindler”, Amon era aquele homem branco que ficava de longe praticando tiro ao alvo em judeus no campo de concentração. Pois bem. O livro conta o drama dessa mulher preta que descobriu ser neta de (mais esse) demônio (do olho azul) e como ela lidou com isso. Uma parte do livro, entretanto, me chamou atenção e me inspirou a fazer esse texto: o papel da mulher de Amon, Ruth Irene Goth, e de outras mulheres de carrascos nazistas.

Não há dúvida que o regime nazista era um sistema comandado por homens. Dos filósofos da supremacia ariana aos soldados rasos, tratava-se de um regime majoritariamente masculino. Mas, o que as mulheres desses homens fizeram? Elas eram inocentes?

No caso específico de Ruth Irene Goth, a leitura me chocou. Ela tinha “empregadas” judias (precisa descrever o que ela fazia com elas?), tinha o hábito de dançar valsa com Amon dentro do campo de concentração (a foto deste post é dela, tirada dentro de um campo), e com o fim do regime continuou afirmando o quanto ele era um homem maravilhoso e INOCENTE. Amon foi executado e Ruth Irene Goth permaneceu viva até recentemente. Ela ficou com todo o dinheiro que Amon ganhou durante seu trabalho porco. As jóias e os pertences de maior valor roubados dos judeus ficaram pra ela. A casa construída ao lado do campo de concentração também. Muitas mulheres dos carrascos nazistas que enriqueceram durante o regime e foram condenados à pena de morte com o fim da guerra, herdaram inúmeros bens roubados dos judeus, casaram com outros homens e tiveram um papel fundamental no perpassar da ideologia nazista aos seus descendentes. Ideologia esta que está, como sabemos, vivona aí até hoje.

Depois de anos em campos de concentração, muitos judeus (inocentemente) voltaram para suas casas e, ao chegarem, se depararam com as mulheres destes carrascos abrindo a porta dizendo “você deve estar enganado. Essa casa sempre foi minha”. Então eu fico me perguntando: não operar diretamente a máquina de opressão isenta alguém de culpa? Fico imaginando essas mulheres indo às ruas anos mais tarde exigindo igualdade de direito para com os homens, igualdade para, juntamente como eles, compor o exército, o Estado, as universidades (em suas experiências eugenistas), pedindo igualdade para oprimir povos subalternizados.

Ontem eu perdi mais 20 irmãos em Osasco, e quando eu vejo apelos de SORORIDADE e irmandade entre mulheres, tremo de medo. Porque mesmo que essas mulheres não tenham poder de decisão dentro de um sistema de supremacia branca que extermina pretos (do que eu discordo, óbvio) elas se beneficiam dele. E muito. Elas compõe as famílias que mandam no país e na humanidade. Então por qual motivos minha irmandade tem que ser com elas e não com meus irmãos pretos?

Quando essas mesmas mulheres brancas saem às ruas queimando sutiã (risos eternos!) elas, em última instância, estão pedindo para participar desse poder de oprimir. E me digam, pois, por qual motivo eu deveria considera-las irmãs. Se Amon batia em Ruth, proibia ela de estudar ou considerava ela como alguém passível de proteção, NÃO ME INTERESSA e, definitivamente, NÃO ME IMPORTA! Sério mesmo que querem me convencer que Ruth também era vítima? Vítimas foram os judeus e os pretos que AMBOS exterminaram!

Trazendo isso para a nossa história preta, é muita inocência acreditar na irmandade entre mulheres num contexto de imperialismo, neocolonialismo e extermínio. Pensar em termos individuais não ajuda. Quem são as FAMÍLIAS que comandam as forças armadas, o Estado, o capital? No dia-a-dia, quem são as pessoas que ensinam nossas crianças a se odiarem nas escolas? Qual o grupo racial que está “no topo” dos indicadores sociais, das instituições, do poder? Se esse grupo tem problema dentro dele, O QUE ME INTERESSA? Eu, membro do grupo mais fudido da humanidade, tenho mesmo que lidar com isso? Os escravos famintos das senzalas do mundo, têm mesmo que se importar como as sinhás e os sinhôs da humanidade se tratam? Sério mesmo?

O papel das mulheres brancas no sistema de supremacia branca é, em última instância, de mantê-lo cinicamente, em silêncio, fazendo o papel de vítima que sempre fizeram. A irmandade entre mulheres talvez funcione nesses coletivozinhos universitários. No mundão, o que há é um nítido pacto de supremacia racial. Despertemos! Ruth amou Amon até o último minuto.

ruth

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s