Colonização marxista

Anin Urasse

“[sobre o marxismo] …trata-se de uma política desenvolvida por intelectuais e operariados brancos europeus e euro-americanos e para eles, carecendo, portanto, de uma razão verdadeira, além do oportunismo, para tratar seriamente das necessidades específicas e dos problemas singulares dos povos dominados pelo racismo”.

                      (Abdias do Nascimento em “Pan-africanismo na América do Sul: emergência de uma rebelião negra”)

Nesse final de semana eu tava lendo “Pan-africanismo ou Comunismo” de Padmore e “Black marxism” de Cedric Robson (fotos). Não que alguém tenha alguma coisa a ver com isso, mas eu quero desabafar.

Os dois autores, a partir da tradição radical negra, fazem duras críticas à esquerda, ao racismo sofrido dentro do partido comunista, às limitações da análise de Hegel, Engels, Marx, Lenin, Gramsci, etc… Um post de uma irmã, Monique Eleotério, assim, me fez lembrar do duro episódio de racismo sofrido por Carlos Moore (foto) em debate com Mauro Iasi ano passado, no Rio de Janeiro. E por isso quis escrever.

Carlos Moore é uma sumidade. Conviveu com Aimé Cesaire, Cheikh Anta Diop, Malcom X. Biografou Fela Kuti, é um dos intelectuais pretos vivos mais respeitados da atualidade. E quem é Mauro Iasi na rua dos cães?

No debate em que Mauro Iasi (um branco, pra quem não conhece) manda Carlos Moore ir estudar história porque ele criticou Marx, o santo da esquerda, o pior de tudo é ver (pra variar) os pretos integracionistas de plantão defendendo Iasi em detrimento de Moore. Quem ousa falar mal do grande pai branco dos revolucionários? (Só pode ser um espião da CIA financiado pelo Fundação Ford! Eles disseram).

Aí, há pouco, eu vi a polêmica de uma peça na qual a atriz principal branca-malhação vai interpretar a primeira ialorixá do Rio de Janeiro. E mais uma vez, não é que tem integracionista defendendo? Seja numa peça, seja em relação a uma teoria, sempre vai haver aquele grupo que jamais irá abrir mão de suas referências euro-doentes. Grupos que jamais vão ousar ir de encontro ao que lhes disse seu senhor. Eternos pretos da casa.

Racista em essência, problemática em sua base de análise, qualquer lixo teórico produzido na Europa ganha adeptos como se religião fosse (aliás, há aqueles que se prestam a adorar um deus branco. Prefiro nem comentar). E haverá sempre aquele grupo raivoso de filhos bastardos da europa que a defenderá com unhas e dentes. Que reconhecerá os erros e limitações, mas mesmo assim vai encontrar mil desculpas e ginásticas teóricas pra tentar concertar o que já nasceu doente. Tentar “enegrecer” o que já nasceu racialmente impregnado, hegemonicamente marcado. E mesmo assim, esse grupo vai ficar tentando reformar e consertar as teorias brancas de sua santidade a europa, nessa tentativa louca e
desesperada do colonizado de nunca ir de encontro a sua madrasta branca.

Essa história da peça me irritou mas já era de se esperar. Afinal de contas, desde 1492 (só na diáspora atlântica) a Europa  e seus descendentes fizeram alguma outra coisa se não massacrar povos e se apropriar da cultura alheia?

O que me deixa boquiaberta é ver como depois de 500 anos, nosso povo, enquanto grupo, nada aprendeu.  Isso a europa fez direitinho: é muita colonização mental.

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2 comentários sobre “Colonização marxista

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