Escrever para não morrer (sobre a morte de meus irmãos no Cabula)

Anin Urasse

(Esse é o desabafo de alguém que está ferida até a alma).

reaja

O movimento negro já fez de tudo. Grupos – de protesto, de trabalho, de estudo. Marchas. Passeatas. Panfletos, folderes e cartazes. Poemas, contos, romances. Músicas, filmes – curtas e longas. Conselhos, conferências, comitês. Seminários, oficinas, workshops. Boicotes, manifestações, gritos. Pinturas, esculturas, fotos. Festas, bazares, feiras. Leis, decretos, comissões de promoção da igualdade racial. Aulas, vídeos, encontros. Hinos, articulações internacionais, blocos de carnaval, desfiles. Escolas, cursos profissionalizantes, políticas afirmativas. Aplicativos de celular, páginas da internet, sites, blogs. O que nos falta, pois, fazer?

Hoje ocorreu uma marcha em memória dos 13 meninos pretos assassinados no Cabula. Da UNEB à Vila Moisés, seguimos, ao comando da Campanha Reaja, de luto por mais um extermínio cometido pela polícia militar do estado da Bahia. Não éramos muitos/as (100, 150?), mas ao longo da avenida, à medida que a rua ia se estreitando, íamos ganhando mais adeptos/as. A comunidade estava conosco. Assinalava com a cabeça, gritava. A comunidade sabe quem são os verdadeiros vilões.

Me chamou atenção a quantidade de meninas jovens, em torno de 15 anos, participando. Meninos só os muito pequenos (até os 5 anos, eu acho), mães e avós. Presumo que não existam mais tantos meninos de 15 anos da Estrada das Barreiras para participarem conosco. Os cartazes citavam a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Constituição Federal, mas um deles resumia todo o sentimento daquele grupo: “é tanta coisa errada que não cabe em um cartaz”.

Uma senhora muito idosa e com dificuldade de locomoção se juntou a nós. Ela disse “eu estou tão magoada!” e passou a mão no peito, aos prantos. Ela perdeu um neto. O neto que a ajudava. Os relatos são inúmeros. Os meninos pediam socorro, mas quem podia ajudar? Que troca de tiros é essa que quebra braços e pernas com ossos expostos e afunda olhos? Tiros nas costas. As sandálias deles ainda estavam lá. Projéteis, roupas, sangue. Tudo lá, naquele campo de terra. Em mídias periféricas, é possível ver um grupo de meninos sendo executado de joelhos em uma outra ação.

Onde estava a branquitude badauê-dread-turbante da universidade? E os/as artistas brancos/as que batem no peito pra dizer que seu som vem da música negra? E os negros/as famosos/as, por que não se posicionam? Onde estavam os blocos afros, as ONGS e as secretarias de governo? Cadê a manifestação das igrejas, dos padres e dos pastores?

O estado brasileiro insiste em manter a truculência e o fosso entre a população branca e preta. Não bastou o exemplo da África do Sul, dos EUA. O estado brasileiro insiste na estratégia burra de manter a maior parte da população à margem. Não falta mais nada ao movimento negro fazer. Nada. A gente já fez tudo o que podia ser feito dentro da legalidade, da paz, da ordem, na tentativa de escrever uma outra história para quem tem a pele preta. Desde a FNB à Campanha Reaja, nós pacificamente dizemos que está errado, que desse jeito a nossa chaga social não será resolvida. Eles não escutam, distorcem os fatos e seguem.

Eu prevejo um novo Soweto, um novo BPP, um novo Diáconos, uma nova FLN. Eu posso até não estar viva para ver, mas que vai acontecer, vai. Que povo vai aguentar isso ad infinitum? Essa negrada vai cansar e vai se levantar e quando isso acontecer não será pregando amor nem diálogo. A mudança não virá da academia, não virá da institucionalidade, mas da favela. Vai acontecer. Nem hoje nem amanhã, mas virá. E quando vier, não digam que a gente não tentou.

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