Eu, mulher preta, erro

Anin Urasse

Se tem uma coisa que eu aprendi com o mulherismo africana, (e que parece ser simples, mas que fez toda a diferença nesse caminho que é a busca pela afrocentricidade) é que eu, mulher preta, erro.

A interpretação feminista, em especial a interpretação do feminismo negro, dava em mim a sensação de que tudo o que eu fizesse estava correto, porque eu “sou a base da pirâmide social” (como se eu fosse a base da pirâmide social sozinha) e, portanto, tinha o direito a tudo, sem jamais ser criticada. (E se um irmão preto me criticasse ou discordasse de mim era porque ele era um machista.)

Quando eu li a Cleonora Hudson escrever sobre a necessidade de admitirmos que mulheres pretas também fazem coisas que afetam negativamente nossas comunidades, eu senti um desconforto gigantesco, porque eu sei que isso é real. Os erros dos homens pretos já estão mais do que debatidos e escrachados. E quanto a nós?

Eu, mulher preta, erro. Eu, mulher preta, erro, e não abro mão disso. Eu, mulher preta, também já busquei o príncipe encantado branco, por exemplo, porque eu também fui exposta a um modelo ideal de beleza de homens e mulheres. Eu, mulher preta, admito que fui mais tolerante com os erros de um namorado branco que eu tive, e que minha relação com esse senhor foi a mais duradoura que tive na vida porque eu era mais condescendente com seus erros. Eu errei.

Dizer “eu, mulher preta, erro” é me colocar de novo no campo do humano. Porque eu sou humana. Já tiraram nossa humanidade tantas vezes, não quero que a retirem de mim de novo. E, sendo humana, erro.

Admitirmos isso é também tirar um peso gigantesco de nossas costas. Errar, e fraquejar, e não ser sempre forte e precisar dos irmãos quando as coisas estão muito difíceis é um alívio. Se só os erros de uma parte de nós são debatidos, como poderemos reerguer o nosso povo de novo? Ainda bem que o mulherismo africana existe!

(Nas fotos: as mulheristas africanas Nah Dove e Cleonora Hudson. Inspirações!)

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4 comentários sobre “Eu, mulher preta, erro

  1. Achei seu blog muito por acaso.
    Achei simples o layout (isso é um elogio sincero). Os textos são cirúrgicos.
    Eu não sou aparentemente “preta”, mas sou preta sim! quando sei que sou (com orgulho) descendente de todas as pretas que (graças a Deus – independente da cor ele tenha) vieram para esses lados de cá, quando me orgulho, e principalmente quando me interesso por isso.
    E apesar de todo sofrimento aos quais foram submetidas, conseguiram nos dar o temos de melhor enquanto “raça”.

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