Nacionalidade de sequestro (sobre ser africana ou brasileira)

Anin Urasse

Agora ta na moda atacarem os pan-africanistas. Batem no peito pra dizer “sou brasileiro!” e nos acusam de estarmos fazendo apropriação cultural dos africanos. Daqui a pouco tão vestindo o verde amarelo da fifa e tal…

Ô, gente. Cês podem ser brasileiros/as como vocês quiserem! A pergunta é: o Brasil te quis QUANDO?

Nosso povo ta tão perdido que acha que se dizer afrikano é sinônimo de ter nascido na Afrika. Que Afrika é um conceito geográfico. Que “os próprios africanos não nos consideram africanos”.

Me apresentem 1 texto de um/a africano/a que questiona nossa colocação, que eu apresento 10 autores/as nascidos/as no continente que discutem o lugar de afrikano/a do/a preto/a diaspórico. Eu tô falando dos textos da UNIA, da UA. Eu tô falando de pessoas como Ngũgĩ wa Thiong’o, por exemplo (já ouviu falar? Saia da Europa e conheça sua biografia!).

africa

As mesmas pessoas que questionam o pan-africanismo, tem fotos dos Panteras Negras nos seus perfis. E eles eram o que, amores? Eles, assim como Malcom X, reconheciam-se enquanto afrikanos nos EUA (pelamor, vão ler o que os mano e as mina escreveram!).

Por incrível que pareça, a identidade que você assume determina seu foco na luta anti-racista. Eu não disputo o Brasil, nem o rótulo de brasileira: EU NÃO RECONHEÇO ESSA NACIONALIDADE DE SEQUESTRO. Eu não acredito em “políticas públicas de promoção da igualdade racial”, eu não acredito em remendo. A bandeira do Brasil, suas cores, suas instituições, representam a vitória do colonialismo sobre nós. O estado brasileiro é a vitória do colonialismo sobre nós. Eu acredito é no FIM desse estado. Eu quero um Estado de Poder Negro (que é diferente de um estado branco com negros no poder). É pra isso que eu milito, com total consciência de que eu não vou ver isso, mas sei que outros irmãos e irmãs vão dar continuidade a esse legado, até quando o dia da nossa libertação chegar.

Apesar de construído com nosso suor, esse país foi a maior desgraça que aconteceu na história do meu povo. E eu vou me auto-proclamar brasileira com muito orgulho com muito amor porque diabos?

Nascer aqui foi uma imposição. Nascer aqui foi a consequência de um SEQUESTRO. Eu não tenho orgulho NENHUM disso.

“Volta pra África!”, dizem-nos em tom de chacota. Quem sabe um dia eu volte mesmo? Conheço irmãos e irmãs que já voltaram e estão felizes.

Vocês tem todo direito de se dizerem o que quiserem, mas respeitem aqueles que adotam uma outra postura política e outra forma de agüentar esse exílio que é ser preto/a no Brasil. Apenas respeitem e conheçam sua biografia. Vocês estão falando um monte de merda. Quer criticar, critiquem, mas pelo menos se embasem. Comecem tirando a foto dos Panteras dos seus perfis.

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4 comentários sobre “Nacionalidade de sequestro (sobre ser africana ou brasileira)

  1. Gilza tu diz no texto que não acredita em politicas publicas de promoção à igualdade racial. Tendo em vista que a luta para a construção de um Estado de poder negro como tu mesma diz é/vai ser árdua e demorada, tu não acha que devido ao sistema vigente, à realidade na qual estamos inseridos agora, se faz necessário que haja medidas de ações afirmativas visando a inclusão(mesmo q lenta e gradual) do povo preto em espaços que historicamente só são ocupados no Brasil por uma elite branca(à exemple do ensino superior)?
    Ps: Encontrei teu blog esses dias e to muito feliz em aprender sobre nosso povo. Obrigada por compartilhar esse conhecimento!

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    1. Ô, irmã, agradeço o comentário e a troca! Então. Sim, eu acho importante que hajam políticas como a de cotas nas universidades e nos serviços públicos, por exemplo

      Entretanto, elas são absolutamente insuficientes. A gente não pode achar que a nossa emancipação virá através dessas medidas, entende? Elas são meio, e não fim. Uma coisa não anula a outra, e talvez tenha sido isso que não ficou nítido no texto. É uqe tem irmãos que acreditam que se o Estado “melhorar” a gente também muda de vida…o que é uma ilusão

      Uma das limitações das “políticas de promoção da igualdade racial” é que, quando se institucionalizaram, perderam a proposta original, que era “políticas de combate ao racismo”. Essa era mais estrutural e estruturante, mas infelizmente…já sabemos porque não rolou.

      Enfim… Vamos dialogando! Obrigada!

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  2. Olá!
    Em primeiro lugar gostaria de agradecer pelo blog, tenho aprendido imensamente com seus textos!
    Se possível, gostaria de entender melhor sobre a diferença, para a perspectiva panafricanista, entre ser “patriota”, no sentido de achar que há uma essência brasileira, acreditar no país, na forma de governo, etc., e reconhecer que pela distância geografica e temporal podem ter surgido diferenças entre as manifestações culturais originalmente africanas que foram trazidas para cá e aqui se modificaram, seja pelo encontro entre diferentes manifestações africanas, seja pelo encontro com fatores culturais do branco.
    Obrigada!

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    1. Saudações pan-africanas, irmã! Agradeço o contato e espero conseguir responder vc.

      Preta, o pan-africanismo é um mundo, e o nacionalismo negro é uma de suas vertentes. É a que escolhi. Não existe uma negação de influências externas (seja no contato com brancos e indígenas) nem negação do grande “caldeirão” que é a diáspora, mas há uma crença de que os africanos são um povo uno, respeitando as diferenças – da mesma forma que existem franceses, belgas, português….mas eles todos constituem o pensamento ocidental. Que se diferem, mas são essencialmente comuns.

      Um cigano ele é cigano tendo nascido na Ásia ou fora dela. Idem para nós, africanos. A grande crítica ao estado brasileiro que o pan-africanismo nacionalista faz se da justamente ao fato de que esse estado só existe em cima da desgraça do povo negro. Ele nasceu a partir do nosso extermínio, e fortalecer o estado brasileiro é fortalecer uma terra de massacre.

      Estamos num país de invenção europeia. Jamais iremos negar as lutas daqui, como os quilombos. Mas entende que os quilombolas, antes de mais nada, transplantaram uma África pro brasil ao invés de pregar uma brasilidade que sempre nos excluiu? Essa é a lógica. Quando o estado mata uma criança preta, ele está fazendo o que ele sempre fez ao longo dos últimos 500 anos. Não há como defender o que já nasceu errado. É esse o raciocínio.

      Espero ter sido nítida! Agradeço e vamos trocando. Com axé e humildade. UHURU!

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