O erro da pirâmide

Anin Urasse

A pirâmide da foto tem sido sistematicamente utilizada como prova cabal da hierarquia social à qual estamos submetidos/as. Compostas, do topo pra base, de homens brancos, mulheres brancas, homens pretos e mulheres pretas, ela seria a prova cabal de que vivemos numa sociedade em que os homens pretos têm vantagem social em todos os aspectos sobre as mulheres pretas. Permitam-me discordar.

Essa é uma pirâmide originalmente do Ipea, que analisa os níveis de RENDA da população. Baseado essencialmente em dados de empregos FORMAIS, o Ipea vai comparando quanto homens e mulheres ganham por raça/cor e organiza a pirâmide.

piramide

A primeira falácia aqui é a de que ganhar mais confere ao homem preto vantagem social inquestionável (influência nociva da análise marxista). O homem preto é essencialmente quem trabalha nas profissões fisicamente desgastantes, com risco eminente de acidentes. Lida com produtos tóxicos, explosivos e corrosivos. Trocando em miúdos, ele é o que carrega peso na construção civil e no transporte de cargas, o limpador de fossa, o coveiro, o dedetizador. Esse homem, que está ali inalando produto tóxico, lidando com ferro em brasa ou máquinas potencialmente mutiladoras, recebe um adicional de “periculosidade” e “insalubridade” no seu salário e passa a ganhar mais. Entretanto, seu risco de morrer, sua propensão a determinadas doenças é absurdo! Qual a vantagem nisso? Não é a toa que os homens pretos são os que lideram o ranking dos acidentes de trabalho no Brasil. (Eu tô falando de mutilações de dedos mãos e braços, quedas de andaimes e queimaduras, só pra começar.) Óbvio que existem mulheres nessas profissões, mas trata-se de uma minoria esmagadora e isso é facilmente perceptível.

A pirâmide na verdade exclui todo mundo que não trabalha formalmente. Qual a cor-gênero dos camelôs cujas mercadorias são apreendidas rotineiramente pela polícia? Alguns indicadores de morbi-mortalidade também dão uma dimensão da “imensa vantagem social” do homem preto: são eles quem tem a menor expectativa de vida. Para além da violência policial (que mata 1 jovem negro a cada 20 minutos no país, não custa repetir), são maioria na população em situação de rua e nos hospitais psiquiátricos. São maioria no sistema prisional, lideram os índices de evasão escolar, são os prioritariamente atingidos pela epidemia do crack, pelo alcoolismo, pelo suicídio e por doenças cardiovasculares (como infarto e AVC). São maioria dos acidentados do trânsito, e maioria dos paraplégicos e tetraplégicos do país (com as comorbidades associadas) devido às sequelas de acidentes de moto e lesões por armas de fogo.

Em geral, nas discussões que participo as frases “mas o homem preto estupra” e “as mulheres pretas morrem de violência doméstica” são sempre usados como argumentos para rebater esses dados que apresento. Problema 1) o homem preto é sempre visto como estuprador em potencial; Problema 2) As mulheres pretas são as maiores vítimas de violência doméstica mas os dados das delegacias da mulher não coletam um dado fundamental: A RAÇA/COR DO AGRESSOR! Quem me garante que essas mulheres são agredidas principalmente por homens pretos? Algumas pesquisas qualitativas (mas que não têm generalização estatística) apontam exatamente o contrário. Arrisco afirmar que essas mulheres são proporcionalmente mais agredidas por seus pares brancos – afinal de contas, esse “príncipe encantado” vai mudar logo logo, ele não é assim, ele se excedeu. Vejo, entre nós, uma paciência muito maior com os erros dos homens brancos do que com os do homem preto. Erro 3) A gente esquece que os homens pretos também são estuprados (especial meninos pretos)e esse é um assunto tabu. Meninos pretos estuprados por padres e pastores (brancos), por educadores sociais na febem, por professores. Nisso, a Cleonora Hudson será taxativa: historicamente, os homens pretos sofreram mais abuso sexual que as mulheres brancas. O estupro de homens pretos escravizados, a emasculação e o divertido jogo de “acender” escravizados (colocar pólvora no ânus e atear fogo) são parte dos jogos sexuais sádicos feitos contra homens pretos por homens e mulheres brancos/as durante 400 dos 500 anos no nosso país. Qual a raça cor do homem que já chegou nesse país estuprando as índias? Quem mais estuprou e estupra na nossa história (mas ainda leva a fama de homem ideal, bonito e menos machista)? Quem me garante que esse padrão não se perpetua? (E eu tenho todos os motivos do mundo pra achar que ele se perpetua!)

Por tudo isso, eu só tenho a dizer que utilizar essa pirâmide para explicar toda e qualquer coisa na nossa sociedade é um erro sem precedentes. Como mulher preta, é óbvio que não estou dizendo que nós oprimimos os homens. A verdade é que nós dois estamos na base da pirâmide. O que eu sempre apelo pros meus textos é que a gente saiba identificar quem são os reais opressores na nossa sociedade. Se ganhar mais que as mulheres pretas no mercado formal, mas ter a menor expectativa de vida da sociedade é considerada vantagem social, reveja o que você está valorizando.

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3 comentários sobre “O erro da pirâmide

  1. Salve Gilza, parabéns pelo blog!
    É fundamental começarmos a refletir sobre aquilo que reproduzimos sem agência, sem autonomia, sem corporeidade – corpo descontextualizado da sua própria experiência. Suas análises fazem esta ponte, nos provoca esta ativação e Agência da corporeidade preta contextualizada, para pensarmos e nos situarmos para o nosso próprio fortalecimento individual e coletivo. O ‘Erro da Pirâmide’ trás, neste debate que virou um padrão ouro das ciências sociais, a nossa Agência e tomada de consciência sobre a nossa situação enquanto povo, saindo dos viesses das bandeiras dos movimentos de esquerda que só nos fazem distanciar da nossa essência afrocentrada. Parabéns irmã!!

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      1. Outro detalhe sobre os agressores / estupradores / criminosos, a mesma mídia controlada pelos homens brancos com certeza não expõe os homens/jovens brancos, quando por exemplo são traficantes de “drogas”, estupradores presos (não são linchados nem “justiçados”) e outros delitos.
        Esse dado – omitido e maquiado – também aumenta o anonimato desses tipos (como o texto reforça) que já chegaram estuprando as indígenas, e dá uma visibilidade potencialmente ampla quando se trata de homens/jovens negros, isso também inclui a mulher/jovem negra quando está envolvida com algo relacionado a crime, coisa que não acontece com a mulher/jovem branca.
        A exposição do Povo Negro que é utilizada nesses órgãos / instituições que colhem (também inventam e distorcem) dados estatísticos e constroem opiniões tanto nas mídias como nos sistemas educacionais (livros, filmes, dvd´s, artigos) que são ensinados para nossas crianças e jovens em geral.
        Esse sistema educacional (privado e público) mais a mídia (controlada pelo homem/mulher branco), transfere, constrói e induz que as pessoas negras, principalmente os homens/jovens, não vão conseguir mudar nem alcançar transformações pessoais fora do senso comum, já que culturalmente estes “dados” mostram que eles são isso mesmo, criminosos em potencial, e que suas origens (África) é um poço de doenças e um território sem tradições de lutas e civilizações, ou seja, que o Povo Negro é um lixo humano que não foi indenizado na “abolição” e seu Povo não foi e nem será REPARADO.

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