O que realmente incomoda você? Assédio e o mito do preto violador

Anin Urasse

(Dedico esse texto ao meus irmãos pedreiros, vendedores ambulantes, porteiros, garis e cobradores de ônibus).

Viralizou no face e virou notícia o texto de uma menina branca que, incomodada com os assédios na rua, desenvolveu a “tática do dentinho” a fim de afastar os homens (uma espécie de careta que simula uma deficiência).

Nem vou comentar aqui o preconceito para com as pessoas com deficiência. Mas só eu percebi, no texto um ENORME racismo? Vamos lá:

A menina começa a falar mal do centro da cidade “cheio de vendedores ambulantes”. Vamos ser mais nítidos? Cheio de PRETOS.

Fala dos olhares ameaçadores, da agressividade, um “jeito pervertido horrível” (palavras dela). A descrição que ela faz é como se estivesse em risco de ser atacada a qualquer momento. Se descreve como uma exceção no meio da multidão (a exceção branca), altamente incomodada, bonita demais para ser olhada por aqueles homens, que só têm olhos para ela (apesar de outras mulheres sofrerem assédio na rua, na cena que ela descreve, só ela é o alvo das atenções).

Eu pergunto, então: quem é a encarnação do mal na nossa sociedade? Quem é tido sempre como o estuprador em potencial? Qual a cor-gênero do medo? Quem são os animalizados, os hiper-sexualizados, os grosseiros, os mal educados?

Toda essa discussão sobre cantadas na rua sempre me faz lembrar o caso de Emmet Till (foto), e de como o feminismo foi (e é) uma arma usada contra homens PRETOS. É feminazi SIM (aliás, todo mundo lembra do caso da marcha das vadias aqui em Brasília, né? Pois bem…).

emmet till

Eu acho lamentável o fato de muitas irmãs pretas não estarem se dando conta do que está acontecendo principalmente agora que feminismo virou moda-rede social. Que ao invés de discutir empoderamento de mulheres (brancas), virou filosofia racha-macho.  (E eu falo de ‘empoderamento’ de mulheres brancas porque nós, pretas, sempre fomos ‘empoderadas’. Lembram de Dandara de Palmares, irmãs? Pois bem. Nenhum povo resiste a 400 anos de escravidão com mulheres ‘desemponderadas’. Quem nunca soube lavar as próprias calcinhas foram elas, irmãs, não nós! Por favor não entrem nessa. Frágeis, nunca fomos).

Eu não estou defendendo o direito dos caras de abordarem mulheres com palavras grosseiras na rua, mas é que eu sempre vejo reclamarem da cantada do PEDREIRO (do vendedor ambulante, do cobrador de ônibus…). Tem alguma coisa errada aí, não? O que de fato incomoda é a cantada ou quem a emite?

Então, irmãs pretas (feministas e mulheristas), está na hora da gente começar a escrever acerca das cantadas que os pais (tios, irmãos, primos) dessas sinhás fazem. As piores baixezas e humilhações que já escutei de caras nessa vida não vieram dos pedreiros nem de camelôs, mas de engenheiros, dos médicos, dos empresários. Lembram, irmãs, do que os pais das nossas coleguinhas brancas faziam com a amiga pretinha quando íamos brincar na casa delas? Pois bem. Quem foi a menina preta que não passou por isso? O sinhô e seu fetiche pela pretinha que malmente chegou na adolescência.

Sonho que um dia as feministas (e aí eu to me referindo às mulheres brancas) escrevam um texto sobre o quanto seus pares brancos tem sido violentos em relação às mulheres pretas. Sim, o machismo tem que ser discutido e combatido. E o racismo também, viu? É muito estranho a cantada que incomoda ser sempre a do pedreiro e a do vendedor ambulante.

Finalizo o texto com tristeza, pensado em Emmett Till e de como o mesmo movimento feminista que legitimou a sua morte na década de 50 tem crescido no Brasil. Vejo o renascimento do mito do preto violador, e casos semelhantes (sem repercussão) acontecendo por aqui. Eu lamento tudo isso. Aos meus irmãos pretos, meu coração e minha solidariedade. Eu vou, sim, apontar quando vocês errarem (e peço, por favor, façam o mesmo comigo), mas sem super-estimar seus erros. Sem cair em estereótipos. Sem demonizar vocês. Eu sou, porque nós somos. Sua negritude também é a minha. Ubuntu. Axé.

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4 comentários sobre “O que realmente incomoda você? Assédio e o mito do preto violador

  1. Muito obrigado pelo texto. Eu nem acredito que finalmente encontrei um texto que consegue ver as histerias dos problemas de mulheres brancas pelo que elas são: elitismo, princesismo, uma filosofia de donzelas escandalizadas. E, sim, é por isso que hoje o feminismo se tornou um movimentotão difuso:já nãos e separa seus aspectos extremamente conservadores dos liberais/progressistas e socialistas. mesmo as marxistas mais radiciais compram retóricas conservadoras e muitas vezes muito antiquadas.

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    1. Olá, Geraldo, tudo bem? Agradeço o comentário!

      Então…o que eu observo é que realmente há uma mistura total. O feminismo de internet é uma salada! Rsrsrrs.. Você vê pessoas que se dizem de uma vertente adotando posturas tipicamente de outra… é a loucura do facebook, né?

      Mas enfim…meu interesse não é o feminismo, mas o mulherismo africana. Assim, optei pela afrocentricidade e me abster de epistemologias europeias. Bom, é isso.

      Saudações!

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      1. Palmas pra você e sua coerência. Ainda não sei exatamente o que é esse movimento mulherista africacentrada, mas se todas estiverem seguindo os seus passos me parece uma movimento que vale a pena discutir e incentivar.

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