QUANDO EU PERDI A MINHA IRMÃ (ou: politizando nossas mortes)

Anin Urasse

Eu aprendi a expressão “politizando nossas mortes” com a Campanha Reaja ou Será Morto/a. E, sim, a morte prematura é uma sombra que tem acompanhado o povo preto há pelo menos 500 anos. Politizar isso faz parte da nossa estratégia de sobrevivência (e luta!).

Há 5 dias eu perdi a minha irmã mais velha, Gilca. Ela tinha 46 anos. Um filho preto de 14. O meu nome, Gilza, foi escolhido para combinar com o dela; e Geisa, minha irmã menor, completou o trio. (Não sei se esse costume de combinar os nomes é africano, mas ele é muito comum na Bahia. Eu acho isso bem peculiar.) Gilca se suicidou. E há 6 anos atrás, meu pai, Valdec, também. Em 6 anos eu perdi meu pai e minha irmã pro suicídio.

Andei lendo umas coisas do Wade Nobles, uma referência em psicologia afrocentrada, na tentativa de entender o adoecimento mental (que é físico, e também espiritual) do nosso povo preto. Porque somos nós a maioria nos hospitais psiquiátricos; nos CAPs; nos manicômios judiciários e é notório (é bem notório) que a política (branca) de saúde mental adotada nesse país (e em toda a diáspora) não está funcionando. E aí o Nobles no início do seu texto já nos confirma essa minha (não só minha) desconfiança. Falando das limitações da psicologia ocidental (branca) que foi inventada, alimentada e sancionada no regime imperialista e racista, diz que ela “jamais conseguirá fornecer explicações e práticas preventivas e curativas para o próprio povo que ela se destina a oprimir”. Em outras palavras, pra nós, povo preto, ela não serve (o Fanon já dizia isso, né?).

“Ao examinar o povo africano em toda a diáspora”, continua Nobles, “poder-se-ia dizer que, coletivamente, precisamos voltar atrás e reconstituir o que esquecemos. Eu diria que o que nós coletivamente esquecemos ou, de modo mais preciso, o que o nosso opressor tentou esvaziar da nossa mente foi o significado de ser africano”. Em outras palavras, africanamente falando, o que Nobles está dizendo é que a gente precisa reaprender…TUDO. A gente precisa reaprender o que é ser uma PESSOA. E aí, a gente vai pra Marimba Ani (no famoso livro “Yurugu: uma crítica afrocentrada do pensamento e comportamento culturais europeus”) quando ela diz que a idéia de INDIVÍDUO, pro povo preto, não existe (e essa é uma das falhas da psicologia ocidental).

Não se trata de pintar a psicologia de preto, nos diz Nobles, mas rever sobre quais bases nós, povo preto, estamos discutindo nossa própria existência (por isso, então, a Afrocentricidade). A famosa frase “Penso, logo existo” de Descartes é a cara da brancura do pensamento ocidental (Hampatê Ba falou sobre isso) e é o supra-sumo da individualidade. Para nós, a ideia é “Sou porque somos”. (Isso lembra alguma coisa?) Em outras palavras, nós povo preto, sintetizamos nossa existência não no “existo porque penso”, mas no “existo porque todos nós existimos”. Não há processo africano que seja individual. Repito: não há processo africano que seja individual. Logo, sei que o suicídio de minha irmã (e de meu pai), não representa somente o suicídio dela (e dele); e que o suicídio deles e de tantos dos nossos, independentemente do estopim gerador, no fundo no fundo, não se dá por motivações individuais.

E é porque não há processo africano que seja individual que eu compartilho esse texto. Porque todas as mortes pretas estão interligadas. Porque todas as mortes pretas estão interligadas (repito), indiscutivelmente. Porque o círculo de mortes prematuras que nos atinge (seja a diarreia da mortalidade infantil, o extermínio causado pelo policial, a violência doméstica que muitas vezes vem dos nossos, ou o suicídio) faz parte de um processo longo no qual estamos passando que se chama GENOCÍDIO. Vi há pouco que mais 5 irmãos meus foram assassinados dentro de um carro no RJ, sangrei de novo, e me lembrei de uma frase do Hamilton Borges que faz todo sentido: “quando a polícia chega para nos matar, já estamos praticamente mortos”. Mortos em nossas referências, em nossa alimentação, em nossos hábitos, em nossa sanidade, em nossa dignidade humana. Deslocados de nossa história, defensores de epistemologias alheias…obrigados e nos obrigando a ser o que não somos. Nos matam tantas vezes!

E qual o objetivo do texto, afinal? (Toda vez que eu escrevo algo, me pergunto isso). Compartilhar. Desabafar talvez. Encontrar algum irmão ou irmã que esteja passando pela dor da morte e abraçá-lo virtualmente (incrivelmente, nesse facebook babilônico eu já tive uns encontros tão incríveis!). Dizer pros irmãos e irmãs da militância que eu tô recolhida esses tempos mas que eu tô na luta (eu vou precisar ficar um pouco quietinha), pedir um pouquinho de paciência e até mimo (please!), mas dizer que eu vou voltar. Mais forte. Temos muito trabalho (real!) a fazer, não é mesmo?

Bom, é isso. Politizando nossas vidas e nossas mortes, seguimos. Sigo lado a lado daqueles que querem reconstituir nossa unidade enquanto povo. Reconstituir nossas comunidades. E nossas referências. E nossas famílias estendidas. E nossa auto-gestão. E nossa independência. E nossa autonomia. Até o dia da nossa libertação pan-africana.

Um só povo, um só amor, um só destino, um só caminho. Ubuntu, família.

hc1

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Na foto: Hamilton Cardoso, militante histórico do Movimento Negro Unificado, autor da famosa frase “o racismo quando não mata, enlouquece”, suicidou-se em 1999.

Um texto em português do Wade Nobles sobre psicologia afrocentrada está disponível aqui:
https://psicologiaeafricanidades.files.wordpress.com/2012/09/nobles-portugues.pdf

 

 

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