Reencontrando Carolina Maria de Jesus no ônibus

Anin Urasse

cmjHá pouco estava voltando pra casa quando uma irmã preta, em torno dos 45 anos, se levantou no ônibus e implorou aos passageiros que, por favor, a levassem pra casa e lhe dessem um trabalho de faxina, ou de passar roupa. Mãe de 4 filhos, criava-os sozinha e, no desespero da fome, sua estratégia foi sair se oferecendo nos prédios até conseguir um trabalho qualquer em troca de comida.

Lembrei na hora de Carolina Maria de Jesus em “O diário de Bitita”, dona da mesma estratégia. Perguntei sobre as crianças: o menor com sete anos. A mais velha, na casa dos 20, paralisada após uma meningite meningocócia. “E o seu marido?” Perguntei. Morreu esmagado por um rolo compressor de lixo enquanto dali tirava seu sustento. Como não era um catador formalizado, a família não tem direito a benefício.

A minha militância é pra que coisas como essas parem de acontecer com as milhares de Ivonetes, seus filhos e TAMBÉM com o seus maridos. Porque enquanto a libertação não for pra todo mundo, não será pra ninguém.

Aproveito o texto pra lembrar que as maiores vítimas de acidente de trabalho no Brasil são homens pretos. Deve ser por isso que (também) dizem que a fome é negra e feminina. Os homens estão mortos.

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