EU, MULHER PRETA, ESCOLHO

No âmbito dos grupos virtuais e das discussões relativas a relacionamentos pretos, têm sido recorrente frases como “mulher preta não tem poder de escolha”, “mulher preta não escolhe” e outras máximas semelhantes. Escrevo esse texto para, obviamente, discordar dessa abordagem e apontar os perigos desse tipo de discurso.

Durante muito tempo, no âmbito da sociologia brasileira, reinou um paradigma que poderíamos chamar de “a inércia do/a escravizado/a”. Defendido por Fernando Henrique Cardoso e seus comparsas da sociologia, esse paradigma colocava os pretos e pretas como seres que, devido ao processo de escravização, perderam a sua humanidade a tal ponto que se tornaram inertes. Em sua obra “Capitalismo e escravidão no Brasil meridional”, o excelentíssimo branco sociólogo ex-presidente da república caracteriza esse escravizado como um ser incapaz de ações voluntárias, uma “coisa” que só praticava ações e significações impostas pelos senhores brancos (vide página 161).

Um dos grandes rebatedores destas asneiras foi o queridíssimo Clóvis Moura. Em “Rebeliões da Senzala”, o autor provou (tivemos que provar!), que as rebeliões escravas no Brasil tinham motivação política. Os negrólogos (essa branquitude que sempre nos coloca como objetos de pesquisa, jamais como sujeitos sociais) afirmavam que essas rebeliões se davam por “choques culturais”, por exemplo. Segundo estes, nossa desumanização tinha sido tão grande que éramos incapazes de nos organizar politicamente, de agir plenamente enquanto seres humanos que somos.

Outro grande representante dessa trupe de negrólogos é o branco Caio Prado Junior. Em “Formação do Brasil contemporâneo”, o renomado cientista social afirma que a função social das mulheres pretas era “elementar”, e que “não ultrapassara a função de satisfazer sexualmente os seus senhores”. Mais uma vez, o mito da inércia do escravizado (dessa vez da escravizada) está aqui: elementares em nossas funções sociais, para esse autor a contribuição da mulher preta para a sociedade brasileira foi dar para os homens brancos (páginas 342 e 343).

Brilhantemente, Lélia Gonzalez (que, como sabemos, é feminista negra, e que está precisando ser lida, pelamor, parem de distorcer as palavras das feministas pretas e leiam o que elas realmente escreveram) em “Racismo e sexismo na cultura brasileira” vai rebater sarcasticamente Caio Prado Junior dizendo:

“ (…) ele pouco teria a dizer sobre essa mulher negra, seu homem, seus irmãos e seus filhos, de que vínhamos falando. Exatamente porque ELE LHES NEGA O ESTATUTO DE SUJEITO HUMANO. TRATA-OS SEMPRE COMO OBJETO. Até mesmo como objeto de saber.” (O grifo é meu.)

Lélia ainda da a entender que Prado é um neurótico e que lê-lo lhe dá vontade de rir. (LÉLIA MARAVILHOSA!!!).

O que eu tô querendo dizer com tudo isso é que o discurso reinante nesses grupos facebookianos de que “mulher preta não tem poder de escolha”, além de reforçar o que intelectuais pretos e pretas lutam há décadas para desconstruir, é irreal e nos faz retornar exatamente ao mito da inércia do/a escravizado/a. Ele serve à supremacia branca. É um discurso racista. Nos coloca como passivas sociais. Como incapazes (até!) de escolher nossos parceiros e parceiras afetivo-sexuais. Somos as que esperam, aquelas cuja função é ser escolhida (jamais escolher). As sem vontade. As inertes. Como se não fôssemos seres humanos dotadas de vontade. Como se não tivéssemos desejos, prioridades. Como se eu estivesse numa vitrine exposta, parada, esperando. Como se numa relação, só a vontade do/a outro/a valesse sobre mim. Se eu, mulher preta, não tenho poder para escolher meus parceiros e parceiras afetivo-sexuais, eu tenho poder de quê nessa vida, minha gente?

Eu escolho. Eu seduzo (Ui! Sexy! Hahahaha). Digo sim. Digo não. Provoco. Dispenso. Tomo a iniciativa. Termino relações. Basta pensarmos um pouquinho para vermos o quanto, na prática, esse discurso não se sustenta. Basta pensarmos em todas as coisas que as mulheres pretas fizeram e fazem para erguer esse país, nossas famílias, nossas comunidades para ver o tanto de poder de escolha que nós temos. Tirar o meu poder de escolher é, mais uma vez, tirar minha humanidade. Não sou um objeto, uma peça sem ação. Eu, mulher preta, escolho (e muito!). E não abro mão disso.

——————–
(Na foto: Lélia Gonzalez, a quem respeito imensamente e com quem aprendi muitas coisas, mesmo eu não sendo uma feminista negra (sou mulherista africana!). Aproveito para compartilhar o seguinte link do dropbox com 15 textos raros da Lélia na esperança que a gente leia mais o que nossas intelectuais pretas realmente escreveram e não esse bando de asneira sem fundamento que se espalha pela internet!)

https://www.dropbox.com/…/6tovs3…/AAAw9pEukw-Kd7RFPxUcNOrMa…

Lelia_Arquivo.jpg

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5 comentários sobre “EU, MULHER PRETA, ESCOLHO

  1. Olá, Gilza!
    Eu estive no EECUN e te conheci através de lá, por isso vim buscar o teu blog, tua fala foi desestruturante e me fez querer reconstruir-me por inteira, lendo tudo o que eu puder para ter a certeza que estou pensando por mim mesma e não de um jeito que ensinaram que eu deveria pensar. E acho que todas nos deparamos com essa questão da escolha e, 0 que é pior, muitas vezes acreditamos inconscientemente nisso e chegamos a acreditar que as coisas tem que ser como são e não podemos fazer nada a respeito. Mas, apesar das realidades que nos oprimem, nós podemos nos rebelar desses grilhões que limitam inclusive nossos pensamentos.
    Só para dizer que estamos juntas nessa luta, irmã.
    Afroabraços,

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    1. Irmã, muito obrigada pela mensagem! Não sei se chegamos a nos falar no EECUN, espero que sim! E não faltará oportunidade de encontros! Seguimos trocando referências e inspirações. Estamos juntas, sim! Até o dia da nossa libertação. Beijão!

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