A HOMOSSEXUALIDADE NÃO É AFRICANA. A HETEROSSEXUALIDADE TAMBÉM NÃO. (PARTE 2)

E A SEXUALIDADE AFRICANA?

Resolvi recorrer aos mitos porque eles são um espelho da sociedade que os produziu (Diop!). Sociedades patriarcais (brancas) jamais irão produzir mitos de emancipação feminina. Sociedades matriarcais (pretas) expressam, em seus mitos, o lugar da mulher. Pois bem.

Todo mundo conhece o itã de amor entre Oxum e Yansã (né?). Na mitologia de Logun-Edé, Orumilá, depois que saiu do Egito (EGITO!), chega a uma cidade criada para adodis e alakuatás (“homossexuais” masculinos e feminino respectivamente) na região do rio Niger, onde Obatalá vivia. Orumilá ensinou segredos de cura nessa cidade e abençoou os adodis por, junto com ele, terem cuidado de Obatalá, que estava doente. Nesse mesmo mito, há uma referência ao nascimento de Logun, uma criança “hermafrodita” (o livro usa esse termo) que foi acolhida por Orumilá (e não jogada penhasco abaixo como se fazia em Esparta-Europa, por exemplo.). O mito também fala de como Oxum tinha amigas alakuatás.

Aí eu gostaria de perguntar às pessoas que reiteradamente afirmam que não existiam relações entre pessoas do mesmo sexo em África: por qual motivo estas relações estariam expressas nos mitos, então? Se uma coisa não existe em uma dada sociedade, ela não vai aparecer em suas histórias, né? Seria como esperar referências à neve nos mitos africanos. (Eu nem vou me alongar nessa discussão porque é bem patético, sinceramente.) No Vodu haitiano, há a referência a “madivins” e “masisis”. Termos semelhantes são encontrados na Santería cubana.

As teorias feministas, queer, e LGBT, ao analisarem as sociedade ocidentais (inclusive através dos mitos), estabelecem que a homo/lesbo/bifobia tem íntima relação com a inferiorização da mulher: o homem branco “hetero” PRECISA oprimir mulheres e não-heteros para legitimar seu poder. Só que as sociedades africanas são matriarcais, né? Ou seja: não havia inferiorização de mulher preta porríssima nenhuma. Logo, se numa sociedade ocidental-patriarcal faz sentido perseguir homossexuais, em sociedades africanas-matriarcais essa perseguição não faz sentido nenhum. É por isso que Javé, o deus branco cristão, odeia a homossexualidade. E é por isso que Oxum tinha amigos adodis e alakuatás (mitologia ajuda!).

Vocês conseguem conceber um padre/pastor falando de amor entre Maria e Maria Madalena? Comparemos as religiões ocidentais e de matriz africana na diáspora e vejamos em quais delas mulheres e “homo/bissexuais” ostentam posições de comando. Com tudo isso, eu só posso concluir que a “homo/lesbo/bifobia” não é africana. À semelhança do que a Cleonora Hudson fala sobre o machismo, tratam-se de fenômenos da ordem da brancura. Comparemos a atitude de Orumilá e a de Jeová. O primeiro abençoa os adodis. O segundo diz que estes irão pro inferno. São berços civilizatórios opostos. Escolhamos, enquanto povo preto, a partir de qual berço queremos nortear nossas vidas.

Isso não significa dizer, porém, que pessoas pretas não podem ser “machistas” e “homo/bi-fóbicas”. Mas isso é muito mais a reprodução da característica do berço civilizatório de quem nos colonizou do que inerente ao nosso próprio povo. Se hoje temos tórridos exemplos de subordinação feminina e perseguição a “não-heterossexuais” em África, devemos isso à colonização. Acabar com o machismo e com as homo/bifobia em África e em Diáspora é, em última instância, matar a supremacia branca.

MILITÂNCIA LGBT E GENOCÍDIO

A militância LGBT é importante para os brancos porque foi criada por eles e para eles se resolverem lá entre si com suas fobias. Acontece que o nosso problema está para além de “homo/bifobia” ocidentais. O nosso problema não é só o branco hetero, mas o homo, TAMBÉM. Há alguns tabus sobre os quais não se conversa, mas a homossexualidade branca também nos é tóxica. Um exemplo? O estupro cometido por homens gays brancos contra homens pretos durante a escravização (e se eu não tenho certeza que 100% deles eles gays, também não posso dizer que 100% eram heteros). Sobre esse assunto, a Cleonora Hudson será enfática: homens pretos foram mais estuprados ao longo da história do que mulheres brancas. A própria Audre Lorde também fala sobre o papel de opressão de homossexuais masculinos brancos no seu ensaio “O sadomasoquismo na comunidade lésbica”. Ela diz: “Frequentemente, os homens gays estão trabalhando para não mudar o sistema. (…) Muitos homens gays brancos estão sendo puxados pelas mesmas cordas que outros homens brancos nesta sociedade. Você não consegue que pessoas lutem contra o que eles identificaram como seus interesses básicos.” Acho, de coração, que os brancos oprimidos por outros brancos têm agência social suficiente para resolverem seus problemas sozinhos, né? É por isso que esse lance interseccional não me desce. No final das contas, a gente fica fazendo recorte pra incluir quem, juntamente com seu povo, só nos deu patadas.

Outra questão importante aqui: o movimento LGBT precisa fazer um debate honesto, né? Porque o “gay” que é assassinado empalado nos hotéis baratos da Avenida Sete, em Salvador, é preto. Enquanto isso, no Beco da Off, na Barra, homossexuais brancos vivem suas vidas muito tranquilamente. E se um homossexual branco é atacado com uma lampadada na cara em plena Avenida Paulista, ele é exceção e não regra. Ele é tão exceção que aparece no horário nobre do jornal. (À semelhança do mendigato!) Eu já perdi 3 conhecidos adodis que não foram notícia. Bora lá desagregar as mortes violentas de “LGBTs” por raça/cor e ver quem está morrendo. Não se trata de assassinato de LGBTs (muito menos feminicídio quando se trata do assassinato de mulheres). É POLÍTICA DE EXTERMÍNIO DE UM POVO COMO UM TODO (infelizmente, muitas vezes executados por nós mesmo). É genocídio do POVO preto. E se o movimento LGBT não fala isso, também está contribuindo pro nosso genocídio.

Se eu acredito que os adodis a alakuatás sofrem de uma maneira diferenciada? Sim. Mas não porque há uma junção de racismo + outras fobias (esse raciocínio somatório inteseccional é ultra ocidental), mas porque o controle de corpos pretos perpassa ferozmente pela sexualidade. Assim, se estou com minha companheira na rua e recebo olhares de reprovação, acredito que é porque a sociedade branca molda o corpo negro para ser “heterossexual” à luz da concepção judaico-cristã. (Aliás, o racismo molda o corpo preto pra ser HIPERheterossexual). Não se trata, portanto de racismo + “lesbofobia”. É racismo em sua face controladora de sexualidade.

EMASCULAÇÃO DE HOMENS PRETOS

Retomando Cleonora Hudson e sua observação sobre o estupro de homens pretos, é dentro deste contexto que, de alguma forma, sua fala casa com as análises de Francis Welsing. Welsing fala sobre emasculação de homens pretos e do quanto esta é também uma prática da supremacia branca. Desde a emasculação física (a amputação dos seus órgãos sexuais, prática comum durante a escravização) à emasculação social (criação de situações que impedem esse homem de exercer sua sexualidade, a exemplo do que ocorre nas prisões).

Asante também fala disso usando o exemplo das prisões: uma vez que o encarceramento em massa de pessoas pretas é uma regra na diáspora, é preciso compreender quais as consequências deste encarceramento e um deles é a adoção de relacionamentos forçados entre pessoas do mesmo sexo que, fora deste contexto, somente se relacionariam com pessoas do sexo oposto. Uma sexualidade forjada num contexto extremo de opressão que é a cadeia pode ser saudável? Talvez. Pode ser nociva? Pode. É preciso falar dos efeitos nocivos. O que ganha a supremacia branca em encarcerar principalmente homens pretos e obriga-los à adoção de uma sexualidade que, em outro contexto, ele poderia OU NÃO exercer? Asante é, por fazer essa discussão, acusado de homofobia. (Como esse assunto é complicado! E dolorido! Mas precisamos pensar sobre isso.)

SEXUALIDADES EMBRANQUECIDAS

É bem notório, ainda, como em nossas referências de masculinidade e mulheridade tem sido a brancura. A Assata Shakur fala sobre isso na sua carta “Uma mensagem para minhas irmãs”. Ela diz: “nós não queremos ser como Miss Ann (personagem de mulher branca). Ela pode manter seus cílios postiços e sua falsa, espoliada imagem de mulheridade. (…) Nós vamos definir por nós mesmas o que é mulheridade. E Nós vamos criar o nosso próprio estilo e nossas próprias formas de se vestir. Nós não podemos ter um homem branco na França dizendo às mulheres Afrikanas como aparentar. Nós vamos criar nosso próprio jeito New Afrikan de viver.”

Como é ser homem e mulher africano? É essa pergunta a ser feita. Como é se relacionar (e se definir) africanamente? Fizeram a gente esquecer, por causa da escravidão, então é necessário buscar. Por isso, quando a afrocentricidade fala de “relacionamento afrocentrado”, não está falando de relacionamento entre pessoas pretas. Muito menos se restringindo a relacionamento afetivo-sexuais. Está falando de maneiras de se relacionar que perpassa por valores africanos. Como é exercer a sexualidade preta?

CONCLUINDO

E já que cheguei até aqui, gostaria de agradecer aos adodis a aleokuatás da afrocentricidade por tantas reflexões que temos juntos, em especial aos guardiões Osmar e Leo. Eu aprendo demais com vocês. E como se diz na Bahia, “sem adé não tem axé! :*

Meu desejo? Que matemos a supremacia branca. Inclusive esta que se estabelece dentro da gente. Que matemos a supremacia branca que nos faz acreditar no que o colonizador disse sobre nós; Que matemos a supremacia branca teórica. Que os padrões de sexualidade que temos adotado à luz de definições ocidentais (homos, heteros, bis) sejam revistos. Que nos voltemos pra África. E, principalmente: que, ENQUANTO POVO possamos nos reeguer, o que perpassa por acabar com o rechaço de sexualidades “não-heterossexuais” que matam muitos dos nossos nas comunidades pretas. Já temos o exemplo dos terreiros, é só seguir. Matemos, sim, o branco dentro da gente.

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PRINCIPAIS REFERÊNCIAS:
1. Assata Shakur – Uma mensagem para minhas irmãs (carta) Disponível aqui:
https://www.dropbox.com/…/Uma%20mensagem%20para%20minhas%20…

2. Cheikh Anta Diop – A unidade cultural da África negra: esferas do patriarcado e do matriacado na antiguidade clássica (livro).

3. Cheikh Anta Diop – Origin of civilization (livro). Completo, mas em inglês, aqui: https://www.dropbox.com/…/DIOP%2C%20Cheikh%20Anta.%20Origin…
Parte em português aqui: https://estahorareall.wordpress.com/…/a-origem-africana-da…/

4. Cleonora Hudson – Mulherismo Africana (livro). Há um fragmento em português aqui: https://www.dropbox.com/…/Africana%20Womanism%20_%20O%20out…

5. Francis Welsing – The Isis papers (livro). Há um resumo em português aqui: https://estahorareall.wordpress.com/…/dr-frances-cress-wel…/

6. Molefi Asante – Afrocentricidade (livro)

7. Nei Lopes – Logun-Édé. Santo menino que velho respeita (livro)

8. Randy Conner e David Sparks – Queering Creole Spiritual Traditions: Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender Participation in African-Inspired Traditions in the Americas. Disponível (em partes), em inglês, aqui: https://books.google.com.br/books…

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