10 TÓPICOS SOBRE MULHERISMO AFRICANA (para escurecer o pensamento)

1. O mulherismo africana é uma teoria que visa a discussão de gênero numa perspectiva afrocêntrica. Assim, não é possível entender mulherismo africana sem conhecer a afrocentricidade. Toda mulherista africana é afrocentrada.

2. O mulherismo africana está contido na afrocentricidade. É uma de suas partes, mas não só. Compõem a afrocentricidade, além de toda a orientação teórico-metodológica desenvolvida pela Ama Mazama e Molefi Asante (dentre outros), a psicologia afrocentrada, o serviço social afrocentrado, os estudos afrocentrados na área de literatura, etc…

3. O que significa ser afrocentrado na prática? Significa fazer da África nossa referência principal, primordial e primeira. Podemos ler teóricos não-pretos como aristóteles, marx , beauvoir, nietsche, cientes de que eles escreveram DESDE E PARA O POVO DELES. Não temos interesse em adaptar o que eles fizeram à nossa realidade, porque NÓS TEMOS NOSSAS PRÓPRIAS REFERÊNCIAS e podemos empreender uma luta de libertação com base nas experiências africanas de luta. Um exemplo? Os quilombos. Sua organização econômica, política, social, cultura não era liberal, socialista, comunista ou anarquista. Era PRETA. Além disso, compreendemos, com base na teoria dos dois berços de Diop, que europa e África são berços civilizatórios OPOSTOS no que tange aos valores, cultura, estrutura social, etc…. (é patriarcado versus Matriarcado) o que faz do enegrecimento de qualquer teoria europeia impossível, já que ela vem de uma historicidade essencialmente branca. Da mesma forma que o racismo não pode ser reverso, o marxismo não pode ser negro.

4. Nem todo/a teórico/a preto/a é afrocentrado/a. Um exemplo? Luther King. Não se trata de um demérito, é um fato. Portanto, mesmo reconhecendo a importância de homens como ele, sua orientação teórica é outra. Idem para Stuart Hall, Paul Gilroy, Cornel West e outras fitas. Podemos aprender alguma coisa com eles, assim como com teóricos não africanos, se estivermos cientes das limitações de suas análises.

5. O que significa ser afrocentrado na prática (2)? Colocar a África no centro. Saber distinguir o que é valor ocidental e africano. Reconhecer-se enquanto africanos que, devido a um processo de desenraizamento que dura pelo menos 500 anos, foram privados de nossa língua, cultura e convivência. Buscar África nos mínimos detalhes: alimentação, leituras, vestimentas, comportamentos, relacionamentos, prioridades. Isso significa dizer, na prática, que quando assumimos a afrocentricidade, mudamos nosso jeito de ser, porque até o nome que nos deram é o nome do colonizador. É por isso que muitos irmãosãs da afrocentricidade adotam nomes africanos (e absurdamente são achincalhados por isso!). carregamos em nós o nome daqueles que escravizaram nossas famílias. É uma morte ontológica.

6. É mulherismo africanA (com A no final). Por quê? Esse “Africana” é um plural do latim. Logo, já na sua denominação, o mulherismo africana reconhece a pluralidade das experiências das mulheres pretas de África e diáspora. O mulherismo africana faz parte de uma escola chamada Estudos Africana, e os eua, hoje, são o polo de maior produção de material. ISSO NÃO SIGNIFICA que seja uma teoria norte-americana. Compõem o quadro de teóricas mulheristas africanas mulheres da diáspora e do continente: eua, Zimbábue, Gana, Haiti, entre outras. (Ah! E por que latim? Porque o latim é preto. Quem sistematizou o latim foram os mouros, e os mouros eram pretos.)

7. O mulherismo africana não se propõe universal. Ele está voltado para mulheres africanas do continente e da diáspora. SOMENTE. Mulheres de outros povos, em conjunto com suas comunidades, tem condições e agência social suficiente para resolver seus problemas internos. Não acreditamos na unicidade da luta feminina porque essas mulheres vêem de berços culturais OPOSTOS. O que é emancipação pra uma, jamais será pra outra. Existe uma experiência universal do que é ser preta africana. Os outros povos tem suas próprias experiências. Como se baseia no paradigma da afrocentricidade, uma pessoa branca que porventura se diga mulherista africana é uma deslocada de sua própria história. Idem para pessoas pretas que adotam uma perspectiva europeia. Sempre bom lembrar as palavras do Asante com relação a isso: não é que sejamos contra a cultura de outros povos, mas é que ela, simplesmente, não é nossa.

8. Além de afrocentrada, toda mulherista africana é pan-africanista, uma vez que a afrocentricidade elege o pan-africanismo como plataforma política. Ser pan-africanista significa dizer que povos pretos do continente e da diáspora devem lutar unidos pela libertação, é reconhecer que toda pessoa preta é africana e que a opressão racial se expressa de maneira semelhante em qualquer lugar do mundo onde uma pessoa preta esteja. Aliás, isso é indiscutível. Quem não se reconhece mulher africana (no nosso caso, em diáspora), não pode ser mulherista africana. É o lógico. Como sabemos, a ideia de brasilidade é varguista e gilbertofreyriana, criada no pós abolição para evitar revoltas pretas usando principalmente o samba e o futebol. Na prática, o brasil, uma invenção europeia, sempre nos considerou cidadãos de segunda classe exatamente devido a nossa origem africana.

9. Mulherismo e mulherismo africana não são sinônimos. “Mulherismo” é uma criação da Alice Walker que não rompe com a ótica ocidental de análise das questões de gênero. Não parte da centralidade africana.

10. Colocar a África no centro significa dizer que estamos falando de uma África mítica? Não! África única? Não! Mas compreender que existe uma unidade cultural na diversidade africana, da mesma forma que o pensamento ocidental (branco), por mais diverso, possui características comuns. O não reconhecimento de uma unidade na diversidade é uma característica essencialmente europeia.

Para maiores informações sobre mulherismo africana, seguem os links em português. É preciso ler para discordar.

https://quilombouniapp.wordpress.com/…/africana-womanism-o…/
https://estahorareall.wordpress.com/category/nah-dove/
___________________
Na foto: Kimpa Vita (1682-1706): líder política e religiosa do Congo. Se opôs à colonização portuguesa desafiando o cristianismo: representava personagens bíblicos como pessoas africanas. Foi queimada como herege pela igreja católica, juntamente com seus bebês.

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2 comentários sobre “10 TÓPICOS SOBRE MULHERISMO AFRICANA (para escurecer o pensamento)

  1. Irmã, parabéns pelo texto escurecedor, ele enegreceu ainda mais meus pensamentos. Obrigada por dividir saberes para empoderar a comunidade. Queria trazer a reflexão: “Como se baseia no paradigma da afrocentricidade, uma pessoas branca que porventura se diga mulherista africana é uma deslocada de sua própria história”. Só para entender a questão. Estamos falando aqui de fenótipo ou genética? A pergunta vem pelo seguinte: sou negra fenotípica e geneticamente, porém minha prima, neta dos mesmos avós: negro e indígena, são fenotipicamente brancas, pois seu pai é português. Ela se reconhece como negra, porém não é aceita em nenhum movimento negro, como eu também fui rejeitada por 15 anos, mas não deixei de praticar meu ativismo na luta pela emancipação dos negros e das mulheres pretas. Qual o lugar dela? Quem pode carimbar a nossa negritude? Não estou falando da nenhuma gota ou qualquer teoria de enfraquecimento a nossa causa, até pq conheço bem a teoria de dividir para conquistar. Estou falando de uma angústia que me assolou por anos, embasada em teorias de colorismo que me deixou sem lugar durante anos, mas eu sempre soube o que eu era e de onde eu vinha.Porém as muitas mulheres que me relaciono todos os dias dentro das favelas onde atuo me trazem sempre esta angústia e lendo aqui no texto, queria chamar as irmãs para refletirmos sobre isso.

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    1. Olá, Érica, tudo bem? Agradeço o contato! Então…a afrocentricidade, sob nenhuma hipótese, se baseia em questões genéticas. Sua base é essencialmente a partir da cultura, força motriz de todo e qualquer povo. Entretanto, é reconhecido que existem pessoas não-pretas que assim se denominam para obter “vantagens”, como a inserção na política de cotas. É complicado… O Molefi Asante diz: existem pessoas africanas com ascendência europeia, isso não é um problema. Entende? Ao fim e ao cabo, cabe a cada um de nós, juntamente com nossas comunidades, usar o bom senso nesse item. Espero ter respondido.

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