PORQUE NÃO SOU ANARQUISTA

Meu livro preto da semana foi “Anarquismo e Revolução Negra” de Lorenzo Kom`boa Ervin e Ashanti Alston. Primeiro escurecimento (sempre bom lembrar): sou pan-africanista de orientação garveysta. Deixando isso nítido, continuemos.

Toda a análise anarquista se baseia na historicidade europeia. TODA. Fico me perguntando o que os autores franceses, russos (brancos, brancos, brancos…) analisaram de África pra alguns quererem aplicar na nossa história. Assim, as críticas ao estado são muito muito válidas, mas esse estado que o anarquismo critica é o estado moderno patriarcal ocidental branco capitalista. É branco criticando branco e querendo dizer que tanto a tese quanto a antítese são universais. E não são. Será que proudon (frança), bakunin, e outros os ivisks, óvisks e évisks russos estudaram o estado kemetico? Óbvio que não. Lorenzo peca nisso: todo o seu livro parte da certeza de que as principais críticas anarquistas são universalmente aplicáveis. E não são.

Os inventores do estado e das cidades fomos nós, povos pretos. E o modelo de estado atual é uma deturpação da organização do estado kemético que era, antes de mais nada, um estado matriarcal. Eu não vou estender essa “análise” porque a Nah Dove já fez isso no texto “Definindo uma matriz materno-centrada para definir a condição das mulheres” que eu já cansei de compartilhar (cito sempre ele porque é o mais acessível em português). Assim, chamo atenção para o primeiro erro do anarquismo: assim como “homem” e “mulher” não são conceitos universais, “estado” também não é. E a crítica dos anarquistas de plantão é do estado branco. E África? Quem estuda? Chego, pois, à primeira conclusão: o anarquismo é racista por omissão. E eurocêntrico.

Vou dar um único exemplo sobre a diferença do estado kemético/africano e estado europeu: o papel do exército. O autor do livro afirma que o exército, braço armado do estado, sob a bandeira do nacionalismo, foi responsável pelas maiores guerras e genocídios históricos. Concordo, mas de qual estado estamos falando? Do francês, do alemão, do belga…com certeza! Qual era, entretanto, a concepção de guerra africana? Ao contrário do extermínio e do sadismo desenfreado, o principal objetivo da guerra africana é expulsar, afastar o inimigo, e não amarrar cada um de seus membros em um cavalo e açoitar os cavalos pra que o prisioneiro seja despedaçado vivo. Isso é tática do povo do gelo, de gente nascida em caverna, de gente com a espiritualidade 10 dedos abaixo do subsolo. Os povos africanos guerreavam/guerreiam de máscaras pra afastar o inimigo, meter medo, manda-lo embora, e quando aprisionado, eles eram incorporados à sua sociedade, não esquartejados vivos com requintes de crueldade. Isso me fez lembrar a Paulina Chiziane, quando ela dá o exemplo de guerras em Moçambique, onde mulheres pretas iam na frente NUAS. Quando o inimigo viam aquelas mulheres pretas maravilhosas na frente deles completamente nuas, ficavam envergonhados e paralisados sem saber o que fazer e elas CATAPLAFT! Aprisionavam eles. Nós somos mesmo muito sensacionais, né? Se você procurar na história africana, exemplos de genocídios, e povos completamente arrasados antes da chegada dos europeus você NÃO VAI ENCONTRAR. Guerra havia, porque o conflito é humano, mas a violência genocida é anti-humana e tem cor. Sabemos, pois, o exercito de quem é expert nisso.

Assim, pra entender de estado africano é preciso ler Diop, Chancellor Williams, a Marimba Ani, teóricos africanos e os teóricos da afrocentricidade. (Não tem jeito, tem que ler). E quem tem Obenga, não precisa enegrecer proudon (pxiiii). O que ficou na história conhecido como táticas anarquistas são estratégias de resistência que os pretos já usavam muito antes do anarquismo nascer: boicote, enfrentamento direto, auto-organização… desde quando essas táticas foram invenção europeia, minha gente? Assim, chego à segunda conclusão (olha a treta!): o anarquismo é racista por apropriação.

Outro item que me chama atenção no anarquismo é essa ojeriza à hierarquia, e isso eu faço questão de deixar bem escurecido: A NOSSA ANCESTRALIDADE TEM HIERARQUIA, VIU? Colocar hierarquia como sinônimo de opressão faz sentido na história dos europeus, mas não na nossa. Compare o papel hierárquico do papa (enquanto representante máximo da igreja católica) com o papel hierárquico de uma ialorixá e veja qual hierarquia mata, oprime e estupra e qual hierarquia ensina, orienta e conduz. Não abro mão de minha hierarquia ancestral.

Por tudo isso (e muito mais coisas), eu jamais seria anarquista, e enegrecer o anarquismo me parece um esforço desnecessário e uma missão impossível. Nós, pretos, não precisamos de revolução (que é um conceito europeu), mas sim de uma RESTAURAÇÃO dos nossos valores e práticas, esse é o ponto principal. E, claro, a “luta de classes” não se aplica a nós (leiam o texto da Nah Dove “Uma crítica africano-centrada à lógica de Marx” pelamor de Jah!). Num ponto, porém, vou concordar com os anarquistas: ambos queremos o fim do estado branco, que está no brasil e atualmente está em África. Discordamos, entretanto, no que vem depois: eu acredito na construção de uma federação pan-africana pro povo preto. É isso que defendo.
Óbvio que respeito a trajetória de Lorenzo Kom`boa Ervin, um revolucionário de verdade, ex pantera negra, sequestrou um avião, ficou na cadeia 15 anos, militante genuíno, mas é nítido no livro seu distanciamento de África. O debate racial some do meio pro final do livro, a sensação que dá é que o racismo irá acabar com o fim do capitalismo e do estado (quando o racismo é MUITO anterior a ambos) e esse lance de “os trabalhadores brancos precisam deixar seus privilégios em nome da emancipação da classe trabalhadora” me parece um pedido absurdamente humilhante. A população branca é menos de 10% da população mundial. A gente não precisa que eles façam NADA para a nossa emancipação. A gente precisa mesmo é se juntar enquanto povo preto. Pedir pra enegrecer o anarquismo é mais uma tentativa de integração que me irrita. Não tenho interesse em me integrar. Raça primeiro e até o fim.

Ao fim e ao cabo, indico a leitura, porque o autor tem umas sacadas interessantes. Reforço a concepção afrocentrada de que a gente não precisa enegrecer porríssima nenhuma vinda de quem nos colonizou. Nosso povo tem tradição, tem história e tem teoria. Assim, finalizo com uma frase paradoxal do próprio Lorenzo: “mate o branco dentro de você”. Que nos voltemos pra nossa história.

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OBS.: sempre deixo escurecido que escrevo para meus irmãos SOMENTE. Pessoas não-pretas que querem ficar enchendo o saco no meu perfil ou blog eu nem leio;

OBS2: Se você é preto/a e anarquista tem meu respeito, mas eu não estou caçando treta, só tenho o direito de escrever sobre a minha visão das coisas. Portanto não tenho interesse em ficar batendo dedo via facebook. Estou bem convencida da minha posição. Se for pra dialogar de boa, a gente pode dialogar, e obviamente vocês vão me acusar de não ter decorado toda biblioteca anarquista. Isso, com certeza, é verdade. Não tenho interesse em ser expert em europa. Minha prioridade é África mesmo. Beijos de melanina.

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9 comentários sobre “PORQUE NÃO SOU ANARQUISTA

  1. “OBS.: sempre deixo escurecido que escrevo para meus irmãos SOMENTE. Pessoas não-pretas que querem ficar enchendo o saco no meu perfil ou blog eu nem leio;”
    Não é interessante nós brancos nos desconstruírmos lendo textos daqui, e perceber a merda que nossos ancestrais fizeram?

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    1. Mesmo que 100% das pessoas brancas percebam tudo o que aconteceu e desconstruam suas visões racistas e preconceituosas, irão ceder, por exemplo, seus bens materiais herdados de um passado escravagista? Ou ceder lugar no comando do Estado e das empresas pro povo que manteve a economia deste país por 400 anos sem receber nada por isso?

      Eu não acredito no fim do racismo. Não há registros históricos de convivência pacífica entre povos pretos e brancos em nenhum lugar do mundo. E a culpa não é do povo preto.

      O racismo é um fenômeno pré-histórico, registrado a partir do momento em que os primeiros povos pretos se encontraram com os primeiros povos brancos. Uma das “provas” disso, é o fato de que todos as sociedades não africanas possuem mitos milenares que fazem referência a algum tipo de “monstro” preto. E não sou eu que estou dizendo isso. São os estudos diopianos. Pedir o fim do racismo, é, portanto, a-histórico.

      Assim, são vocês, brancos, que precisam procurar entender que problema é esse que vocês têm conosco, por vocês mesmo. Como diz o Garvey, eu não tenho tempo de odiar pessoas brancas. Todo meu tempo é dedicado para o povo preto. Só isso.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Lindo demais tudo isso aqui! Mas não lindo piegas, e, sim, de elevar a alma negra até o céu da energia predominante do universo à pela: a matéria escura. Gratidão, Preta! Axé, Aweto!

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  3. Olá, sou aluna do curso de ciencias sociais da Unesp de Araraquara, negra, namoro um homem negro que é peri´férico que nem tem o ensino médio completo, e nós dois sempre temos discussoes sobre a questao do afrocentrismo, de forma muito informal e meio que “perdida” ahaha
    Enfim, várias coisas que estou lendo em seu blog estao abrindo portas para mim, pois estes temas sempre foram de meu interesse mas eu nao sabia onde encontrar as referencias que está dando aqui
    Suas ideias estao contribuindo muito com a construçao do meu conhecimento, esse semestre quero colocar em prática e contestar as ideologias que me fazem engolir, mais embasada do que nunca
    Obrigada, acho que me descobri uma mulherista africana
    Beijoooooos

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    1. Obrigada pela mensagem! Não sei porque ela só apareceu pra mim agora, peço desculpas pela demora em responder! Seguimos juntas nesse caminho “de volta pra casa” que é a afrocentricidade! UHURU!

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