A Mulheridade Afrikana por Assata Shakur

Sim, eu sou uma fã de Assata Shakur. E não, ela não é uma mulherista africana. Elá é uma mulher preta que, ao longo da sua história de vida e luta, referencia a importância da Mulheridade Afrikana em nossas vidas.

Sem me estender muito, gostaria de compartilhar um trecho de um texto seu chamado “Mulheres na Prisão: como acontece conosco” que mexeu muito comigo. A tradução é da minha irmã Lu Isha, e a revisão é minha. Em breve, comporá um livro. Num texto chamado “Para minhas irmãs”, Assata fala na necessidade de resgate da nossa Mulheridade Afrikana e a necessidade de compormos um corpo de mulheres pretas fortes. Nesse, ela se define como uma maroon moderna que se recusa a desafricanizar (💚💛❤️). Compartilho da emoção que é ver traduzida por ela o significado de MULHERIDADE AFRIKANA que nós temos perdido em nome de uma pseudo-liberdade que nos desafricaniza.

Plenitude, Hotep! UM SÓ POVO!
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“Eu posso imaginar a dor e a força das minhas bisa e tataravós que eram escravas e os meus tataravós que foram Cherokee, índios presos em reservas. Lembrei-me de minha bisavó, que andou por toda parte, ao invés de se sentar na parte de trás do ônibus. Eu penso sobre Carolina do Norte e minha cidade natal e eu me lembro das mulheres da geração da minha avó: mulheres ferozes e fortes que poderiam te parar com um olhar nos cantos de seus olhos. Mulheres que andavam com majestade; que podiam torcer o pescoço de uma galinha e pescar um peixe. Que podiam colher algodão, plantar um jardim e costurar sem um padrão. As mulheres que ferviam roupas brancas em grandes caldeirões negros e que cantarolava canções de trabalho e cancões de ninar. Mulheres que visitavam os idosos, faziam sopa para os doentes e pães Short’nin para os bebês.

As mulheres que deram à luz aos bebês, procuraram por raízes de cura e medicamentos naturais. Mulheres que cortavam madeira e massavam tijolos. Mulheres que podiam nadar em rios e atirar na cabeça de uma cobra. Mulheres que tomavam dedicada responsabilidade para seus filhos e para os filhos dos seus vizinhos também.
As mulheres da geração da minha avó fez da doação uma forma de arte. “Aqui, leve este pote de couve à Irmã Sue”; “Leve este saco de nozes para a escola e de ao professor”; “Fique aqui enquanto eu vou cuidar a perna do Senhor Johnson.” Cada criança no bairro comeu em suas cozinhas. Elas chamavam umas as outras “irmãs” por causa do sentimento e não como o resultado de um movimento. Elas apoiavam umas as outras em tempos difíceis, compartilhando o pouco que tinham.

As mulheres da geração da minha avó em minha cidade natal treinaram suas filhas para a mulheridade. Ensinaram-lhes a dar respeito e exigir respeito. Elas ensinaram suas filhas como bater a manteiga; como usar graxa de cotovelo. Ensinaram suas filhas a respeitar a força de seus corpos, a levantar pedras e como matar um porco; o que fazer para a cólica, como interromper uma febre e como fazer um cataplasma, colchas de retalhos, tranças no cabelo e como a cantarolar e cantar. Elas ensinaram suas filhas a cuidar, a assumir o comando e a assumir a responsabilidade. Elas não iriam tolerar menina preguiçosa ou uma garota com a cabeça nas nuvens. Suas filhas tiveram de aprender como seguir suas aulas, como sobreviver, como ser forte. As mulheres da geração da minha avó eram a cola que mantinha a família e a comunidade juntas. Elas foram a espinha dorsal da igreja. E da escola. Elas consideravam instituições externas com antipatia e desconfiança. Elas determinaram que seus filhos devem sobreviver e eles estarão comprometidos com um futuro melhor.
(…)

A maioria de nós rejeita o movimento das mulheres brancas. Senhorita Ann ainda foi Dona Ann para nós, se ela queimou os sutiãs dela, ou não. Nós não poderíamos nos simpatizar pelo fato de que ela estava presa em sua mansão e oprimida por seu marido. Nós estávamos, e ainda estamos, em uma prisão muito mais terrível. Sabíamos que as nossas experiências como mulheres pretas eram completamente diferentes daquelas do movimento das mulheres brancas. E nós não tínhamos vontade alguma de nos sentarmos em algum grupo de levante consciente com mulheres brancas e levar conosco as nossas almas.

As mulheres não podem ser livres em um país que não é livre. Nós nunca poderemos ser libertas em um país onde as instituições que controlam nossas vidas são opressivas. Nós nunca poderemos ser livres enquanto os nossos homens são oprimidos. Ou enquanto o governo amerikano e o capitalismo amerikano permanecem intactos.
Mas é imperativo para a nossa luta construir um movimento forte para as mulheres pretas. É imperativo que nós, como mulheres pretas, conversemos sobre as experiências que nos moldaram; que avaliemos os nossos pontos fortes e fracos e definamos a nossa própria história. É imperativo que nós discutamos maneiras positivas para ensinar e socializar nossas crianças.
O veneno e poluição das cidades capitalistas estão nos sufocando. Precisamos da medicina forte de nossas antepassadas para nos fazer bem, novamente. Precisamos de seus medicamentos para nos dar força para lutar e unidade para ganhar. Sob a orientação de Harriet Tubman e Fannie Lou Hamer e todas as nossas antepassadas, vamos reconstruir um senso de comunidade. Vamos reconstruir a cultura de doar e continuar a tradição de determinação feroz para seguirmos em frente, mais perto da liberdade.”

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5 comentários sobre “A Mulheridade Afrikana por Assata Shakur

  1. Bom texto. Inspirador para retomarmos nossa fraternidade ancestral, incluindo os homens negros. Quanto ao uso de plantas e ervas com fins medicamentosos, tem muita gente que sabe lidar com isto em nossa comunidade que mantém a tradição africana, vamos aprender e dar continuidade. Saudações quilombolas, Luiza, sua irmã.

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