Sobre o aborto: uma pequena contribuição para um grande debate

No dia internacional da mulher branca, me adicionou uma irmã preta que tinha como foto de perfil um meme de “legalização do aborto” e uma referência a Oyá. Eu fiquei absurdamente triste (essas coisas que mexem com a ancestralidade realmente me afetam).

Eu aprendi que o Candomblé não aceita o aborto. Eu já tive a oportunidade de ouvir Makota Valdina falando sobre isso num evento em Recife e foi muito bonito ouvi-la.
O que muda é que, diferentemente do cristianismo, no Candomblé você não vai ser expulsa, escorraçada, negada à palavra, apanhar do pastor…por ter feito um aborto. Vão cuidar de você e dizer “você precisa fazer isso, isso e isso pra se cuidar espiritualmente”. Mas não se aceita.

O debate é longo, e é difícil chegar a um consenso. Mas eu desejaria que outros aspectos fossem abordados antes do irresponsável “legalize” e pronto. É porque o que a gente está chamando de legalização, pode se tornar uma política de controle populacional eugênica sobre a qual não teremos nenhum controle. Porque nada impede, nada impede, que legalizando o aborto hoje, amanhã tenha médico branco fazendo campanha pró-aborto nas favelas.

Se eu sou a favor da legalização? Sou. Mas com mecanismos que impeçam disso virar uma política eugenista. E nenhum mecanismo tem sido pensado pra isso. A IURD defende o aborto e isso me dá medo. Nos EUA, os bairros pretos têm mais clínica de aborto do que escolas, e isso me dá medo. Tenho medo de, no fundo, o que a gente está chamando de “direito de escolha da mulher” vire indução pura e simplesmente, como foi na década de 80 com as esterilizações de mulheres pretas. E só pra constar: a primeira causa de mortalidade materna entre mulheres pretas no Brasil não é o aborto, é a hipertensão. O aborto é a terceira causa. Não vejo o movimento feminista discutindo isso.

Assim, compartilho esse vídeo pra que possamos refletir sobre que bases temos discutido esse assunto. Esqueçam o título tosco e quem o legendou e prestem atenção ao debate entre pensamento ocidental e pensamento africano sobre o tema. Não somos corpos. SOMOS COMUNIDADES.

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Um comentário sobre “Sobre o aborto: uma pequena contribuição para um grande debate

  1. Claro que a legalização do aborto pela legalização do aborto, sem um debate mais amplo de apoio a políticas que prezem pela saúde das mulheres antes e após o procedimento, não melhora em muito a situação dessas que buscam por isso. Muito dos debates hoje no feminismo mais midiático estão envoltos na ideologia liberal, que utiliza-se do discurso de empoderamento para mascarar opressão, é possível que esteja ocorrendo o mesmo com a questão do aborto, mas o feminismo não se resume a isso e há discussões sim sobre quais medidas mais corretas a se tomar nessa situação, basta se perguntar se tais discussões virão a causar impacto real e não permanecerão apenas em teoria…

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