Feminismo Negro X Mulherismo Africana???

Dicotomia é um negócio ocidental que me da asco. No âmbito das discussões pretas sobre gênero, a bola dicotômica da vez é FEMINISMO NEGRO X MULHERISMO AFRICANA. Enriqueçamos esse debate, vamos deixar as coisas mais escuras.

O FEMINISMO NEGRO possui 5 grandes vertentes:
– feminismo afrolatinoamericano;
– feminismo afrocaribenho;
– feminismo afro-americano
– feminismo africano
– feminismo das mulheres negras britânicas

Essa classificação é das autoras colombianas Figueroa e Hurtado. Dentro desta classificação existem ainda diversas “subvertentes”. É o caso do feminismo interseccional. Estou só enegrecendo porque às vezes eu tenho a sensação que muitas irmãs acham que “feminismo negro” é um bolo só. No máximo fala-se do interseccional. Há diversas rixas teóricas, não é tão simples, e ninguém na universidade vai saber lhe orientar sobre isso. Sua professora de gênero é branca, nunca ouviu falar nem em Angela Davis.

Eu nem vou citar as outras 300 mil correntes do feminismo branco né? Particularmente, eu só não consigo entender irmãs ligada ao radfem, que já flertou fortemente com a KKK e a eugenia. Sinceramente, acho que isso é um reflexo do quanto estamos perdidos. Daqui a pouco a gente vai estar querendo enegrecer o nazismo.

O MULHERISMO AFRICANA não se divide em vertentes, e tem como esteio a afrocentricidade. Não existe feminismo afrocentrado. A afrocentricidade escreve textualmente CONTRA o feminismo. Falar em feminista afrocentrada é o mesmo que dizer que a pessoa é fiel à igreja universal e ao candomblé. Não existe. São opostos.

Outras propostas teóricas pretas para discussão de gênero incluem:
– MULHERISMO, Alice Walker
– WOMANISM, Chikwenye Ogunyemi e Mary Kolawole
– STIWANISM, Molara Ogundipe-Leslie
– MOTHERISM, Catherine Acholonu
– MISOVIRE, Werewere Liking;
– FEMALISM, Chioma Opara
– GYNISM, Pauline Marie Eboh
– GYNANDISM, de Chinweizu e Barnabe Bilongo.
(E isso eu tô falando só de estudos de gênero PRETOS! Capaz de ter mais, mas só cheguei até aqui).

Eu tô escrevendo tudo isso porque:
1) a gente precisa conhecer os caminhos teóricos pretos e não contribuir com o nosso próprio epistemicídio

2) se a gente não conhece vai ficar tentando criar vertente eternamente sem nunca se aquietar (é o caso do negralismo, que nem existe, sinceramente). A isso eu chamo de babilônia teórica.

3) mostrar que a rixa feministas X mulheristas africanas é mais desconhecimento do que qualquer outra coisa. Falta gente pra entrar nessa briga! Rsssss

4) Eu vejo uma pressa em se “filiar” a uma corrente teórica, e nesse palco virtual ganha mais adeptos aquelas correntes cujos textos são mais lacradores, e isso é reducionismo.

No meio de tantas possibilidades, como escolher, então? Bom, eu estabeleci um critério. E o meu critério foi: o que parte dos estudos da afrocentricidade? Difícil é quando não tem critério. Difícil é quando critério é um texto de blog. Vão me chamar de academicista (mesmo eu tendo abandonado a universidade em 3 momentos), mas me entristece ver que conhecemos muito pouco o que nosso povo se esforçou pra produzir. E, claro, não poderia deixar de dizer que me chama muita atenção o fato do feminismo em geral ser o mais citado nas universidades. Sua base é europeia, né? É estratégia de manutenção de supremacia.

Não empobreçamos nossa história. Lembremos que as teorias brancas possuem zilhares de correntes e eles sabem todas. Também não dá pra ficar fazendo ecumenismo teórico e achar que dá pra fazer uma salada de vertentes.

O mais fundamental em tudo isso é usar todo esse conhecimento em prol do nosso povo. Depois eu faço um post sobre as linhas do pan-africanismo.

Uma proposta? Tirar o dia de amanhã pra ler os seguintes artigos:

1) “A procura de uma ideologia afrocêntrica: do feminismo ao afro-feminismo”, de BAMISILI. Tem um resumo de todas as correntes que eu citei. Disponível aqui:
http://www.revistas.usp.br/viaatlant…/…/download/58303/99093

2) “Feminismo afro-diaspórico” de Figueroa e Hurtado, disponível aqui:
http://revistas.javeriana.edu.co/…/univhu…/article/view/6404

SAIBAMOS MAIS SOBRE A GENTE!

 

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9 comentários sobre “Feminismo Negro X Mulherismo Africana???

    1. Sandra, veja se consegue achar jogando os títulos dos textos no google. É facinho de encontrar. Caso não, me manda seu e-mail que eu envio pra vc. Bj!

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  1. Tenho acompanhado com muita frequência seus textos e lido outras grandes pensadoras negras que fazem parte desse feminismo negro e, em ambas as situações, me sinto contemplada ou discordo de algo. É necessário mesmo se posicionar sobre qual vertente, enquanto mulher preta, devo seguir?

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    1. É uma escolha sua, irmã.. Eu também concordo com muitas coisas escritas pelo feminismo negro, mas isso não foi de mim uma feminista negra porque meus princípios são outros. E porque, politicamente, discordo da atuação que essa ala do MN tomou. Siga o q vc acha que é correto!

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    1. No “Mulher, raça e classe” da Angela Davis ela descreve um pouco a relação do feminismo com a eugenia, mas não me lembro especificamente se ela cita o feminismo radical, mas com certeza ela cita as autoras/ativistas.

      Você vai encontrar essa relação se buscar informações sobre a W-KKK, a ala feminina da Klan. Margareth Sanger é a representante mor dessa relação.

      Por último, tem o livro “Mulheres da Klan” de Kathleen M. Blee.

      Valeu!

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    1. Olá, irmã, boa noite, como vai? Agradeço o contato e vamos trocando por aqui.

      Preta a Chimamanda é uma irmã nossa. Ela é uma rainha. Uma grande escritora, romancista. Mas ela é uma mulher ocidentalizada, e isso precisa ser comentado.

      A Chimamanda é da elite Nigeriana. Foi cedo pros EUA, é uma mulher com transito no meio da branquitude, e isso facilitou a tradução de seus livros. Óbvio que isso não tira seus méritos, ela é maravilhosa. Mas sua referência não é a cultura tradicional nigeriana, como faz a Paulina Chiziane, (Moçambique) por exemplo. Por isso ela assumiu o feminismo. Que é, indiscutivelmente, ocidental.

      Certa vez li uma entrevista da Chimamanda (acho que você acha no google fácil) em que ela diz que não tinha noção que a 20 km da casa dela na Nigéria tinha tanta pobreza. Isso é importante contextualizar.

      Uma coisa que me chama atenção no livro dela “Sejamos todos feministas”, por exemplo, é como ela reclama, por exemplo, de quando o garçom da a conta pra o homem que o acompanha e não pra ela pagar. De fato, a postura do garçom está errada, mas diante do estado em que vive a maior parte das mulheres nigerianas, esse é realmente a grande queixa das mulheres nigerianas? Entende que talvez haja um elitismo nesse posicionamento?

      É isso. Espero não ter sido dura com a Chimamanda. Repito, ela é maravilhosa. Mas mesmo ela tendo nascido no continente, sua referência não me parece ser a cultura africana. O colonialismo tb atingiu o continente. E a Chimamanda. E a todas nós. Infelizmente.

      Axé!

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