UM ÚLTIMO TEXTO?

 

Vi há pouco que a Afreeka irá adotar um passaporte único válido para todo o continente. As ideias pan-africanas vivem e estão sendo postas em práticas, para a tristeza dos inimigos de Afreeka.

Depois do último sábado, quando recebi o resultado do exame de DNA, e dados os acontecimentos dos últimos 500 anos, minha vontade de ir embora só cresce. Podem até dizer que pensamos numa “África mítica”, mas nenhum país africano mata 1 jovem preto a cada 20 minutos; não é africano o recorde de assassinato de “LGBTs” pretos/as; nunca vi notícia de africanas arrastadas quando foram comprar pão pra sua família. Não foi a Afreeka que colonizou toda a humanidade, que criou a bomba atômica, que destruiu povos inteiros, dividiu nações, matou líderes, escravizou e estuprou 2/3 do mundo. Não é africana a cultura de exploração e acumulação que conseguiu a peripécia de mudar a temperatura da terra. O câncer do mundo é, sim, o ocidente. E como disse sua Haile Selassie, o ocidente tem que morrer.

Por incrível que pareça, depois da emoção inicial, tenho me sentido oca. Não saber sua origem é péssimo. Mas saber sua origem e descobrir que sabe muito pouco ou quase nada sobre ela é fogo. É morte ontológica. Eu até achava que sabia um pouquinho sobre Afreeka, mas estava enganada. Eu não sei 1%, e nem sei se um dia saberei 1% de tudo o que eu desejo. Como bem disse um irmão agora há pouco, o brasil é um acidente na vida de povos africanos e seus descendes. O maior medo deles é a gente se reconhecer enquanto POVO AFRICANO. Porque quando esse dia chegar, não haverá quem possa conter a força dos mais de 60% (com certeza é mais de 60%) daqueles que levaram e levam esse país nas costas. Falam que é uma utopia, mas os judeus, que nem terra tinham, e que desde a antiguidade perambulam pelo mundo, construíram o estado de israel, um atual algoz de Afreeka. Eu acredito piamente na Unidade Africana, numa África Federada, e acredito também que os territórios de diáspora pertencem a quem os construiu. Quilombistas não batiam no peito afirmando sua brasilidade. Quilombistas tomaram territórios e construíram pedaços d’Afrika nessa invenção europeia chamada brasil. Eu sou uma quilombista. Eu não tenho nenhuma obrigação moral com os membros do povo que escravizou minha família. Nem amor ao estado que mais escravizou, por mais período de tempo. Não perdoou, não esqueço e não me misturo.

Vou esperar passar uns dias e me ausentarei desta rede social. Eu preciso estudar e visitar meu povo de origem. Acho que de alguma forma cumpri meu papel por aqui (facebook) e com o blog, ao disseminar um pouco os princípios da afrocentricidade, do pan-africanismo e do mulherismo africana, com meus erros e acertos. O blog está completando 7 meses. Em 7 meses, são mais de 100 mil acessos e 50 mil visitantes. A despeito de toda deturpação e acusações infundadas, enviei livros pretos pra mais de 5.000 irmãos e irmãs do brasil todo que me procuraram pedindo referências africanas dos mais diversos temas (precisamos ler menos blogs e mais livros!). Isso tudo sem financiamento do estado genocida e denunciado quem o usa. Sem ganhar dinheiro, cargo ou ibope por/para fazer “militância virtual”. Mas sempre houveram os/as capitães do mato, não é mesmo? Sempre houveram aqueles/as que transformaram nossa luta de emancipação em lucro individual, não é mesmo? Incrivelmente, são esses e essas os que mais falam mal do pan-africanismo. Que continuem onde estão, esse é o seu lugar.

Agora é hora d’eu me cuidar espiritualmente, me dedicar à linda família africana que estou construindo, preparar a grande volta pra casa, mudar de nome, lutar pela minha real nacionalidade e, principalmente, trabalhar nas ações pan-africanistas da Campanha Reaja, à qual tenho a honra de contribuir com um grão de areia. Talvez seus membros mais antigos não tenham noção do quanto a Reaja é escola, escola, escola. Escola pan-africana de base comunitária, que salva MUITAS vidas, mata fome, liberta encarcerados, denuncia os inimigos SEM MASSAGEM, descoloniza mentes. É uma escola africana que me emociona e que me faz ser uma mulher melhor, comprometida com ações reais que mudam a vida do nosso povo, e cuja atuação MESMO nem é divulgada. O que vem a público é menos de 20% de toda a construção. Porque é no subterrâneo que a gente vai se reeguer. Subvertendo tudo, um dia o jogo vira.

Aproveito para agradecer aos irmãos e irmãs que numa demonstração de carinho e generosidade sem tamanho têm me enviado livros, artigos, vídeos, links, indicações de leitura… sobre os povos balantas e Guiné Bissau em geral. Desde sábado pra cá eu dou umas 3 choradinhas diárias a cada descoberta! Rsss…  A sensação é que tenho que recuperar essas quase 3 décadas sem referência de lugar com todo o afinco possível. Sem esquecer, porém, que o reforço nas diferenças “étnicas” também foi estratégia europeia para evitar a Unidade Africana. África e suas Diásporas são UM SÓ POVO, em suas mais diferentes características. UM SÓ POVO, FILHOS DE UMA SÓ MÃE e é impossível imaginar, que um povo possa se libertar utilizando como base os valores de seus inimigos. Como bem escreveu o mestre Hamilton Borges: “É pan-africanismo ou morte”. É afrocentrididade ou mais morte. Não existe vida preta plena longe dos valores de nossas sociedades originais. Não existe vida preta digna fora dos valores africanos. A afrocentricidade é retorno e casa. E vida.

É isso. Quem for de corre, a gente se encontra pelos corres. Pra não perder o costume, compartilho o livro “A África que incomoda” de Carlos Moore. Um povo que não conhece seu passado não tem como construir seu futuro.

https://www.dropbox.com/s/nob7skiuq5k2vtx/MOORE%2C%20Carlos.%20Racismo%20e%20sociedade..pdf?dl=0

Até breve! E obrigada!

UM SÓ POVO!

Gilza Marques

Afrikana em Diáspora

Balanta de Guiné Bissau

 

 

 

 

 

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