LÉLIA GONZALEZ E O PAN-AFRICANISMO

Eu gostaria de propor a leitura de um artigo da Lélia Gonzalez chamado “A categoria político-cultural da amefricanidade” disponível no final deste texto.

O que é o conceito de AMEFRICANIDADE proposto por Lélia? Resumindo ao máximo, para Lélia era necessário nos auto-denominarmos a partir de uma categoria que expressasse a nossa ancestralidade ameríndia e africana. Assim, nós deveríamos nos denominar amefricanos (uma mistura de ameríndios com africanos). Nem brasileiros, nem latinos. Amefricanos. É bem nítido que essa proposta tem relação com o próprio contexto familiar de Lélia: mãe indígena, pai preto.

Além da leitura do corpo do artigo, eu gostaria de chamar atenção para as referências que a Lélia está utilizando pra propor o conceito de AMEFRICANIDADE. Nesse (e em outros) trabalhos, estão lá nas referências: Ivan Van Sertima, Molefi Asante, Cheikh Anta Diop (por favor, confiram). Todos esses são pan-africanistas nacionalistas. Nesse trabalho, Lélia cita TEXTUALMENTE, que o seu conceito de amefricanidade tem forte influência do pan-africanismo, da negritude e da afrocentricidade.

Fluente em francês, Lélia González estava traduzindo as obras de Cheikh Anta Diop para o português quando faleceu, e o projeto ficou inacabado (1). Engraçado que as mesmas pessoas que hoje fazem um feminismo negro de internet e citam Lélia Gonzalez como seu baluarte fazem escracho do pan-africanista nacionalista Cheikh Anta Diop. UÉÉÉÉÉ???? Lélia fala de matriarcado em seus textos, cita as Candances, por exemplo.

Amiga pessoal ainda de Carlos Moore e Abdias do Nascimento, Lélia estava presente no último discurso de Aimé Cesaire, um pan-africanista nacionalista. (2) Aimé Cesaire foi um martinicano que inventou o conceito de “negritude”. A palavra “negritude” foi escrita pela primeira vez num livro seu chamado “Diário/ Caderno (depende da tradução) de retorno ao país natal”. (Engraçado que muita gente desce o pau no pan-africanismo falando da necessidade de discutir a “negritude brasileira” quando o próprio conceito de “negritude” foi criado por um pan-africanista nacionalista. Ora bolassssss!!!!!!!!!!!)

Ainda, o livro fundacional da afrocentricidade (publicado na década de 80) cita Lélia González e a mesma tinha se encontrado pessoalmente com o Molefi Asante um pouco antes do lançamento do texto.

Por que eu estou escrevendo tudo isso? Porque apesar de estar fazendo um esforço gigantesco pra não ficar rebatendo eu tenho lido muita coisa nesse facebook que deturpa tanto o feminismo negro quanto a afrocentricidade, o pan-africanismo e o mulherismo africana. NÃO FAÇAM ISSO COM OS NOSSOS!

O feminismo negro bebeu MUITO do pan-africanismo, minha gente. Abre lá o “Democracia da abolição” da Angela Davis! Aliás, ela escreve textualmente em diversos de seus livros o quanto sua obra tem influência do pan-africanista W.E.B. du Bois!

Acontece que anos depois, com o avanço dos estudos do pan-africanismo, é criada a proposta de afrocentricidade. E aí (essa vai pra meus irmãozinho marxistas que eu tanto amo) sabe quem foi a pessoa que falou pela primeira vez sobre a necessidade de um conhecimento afrocentrado? NKRUMAH!

Sim! Esse mesmo que vocês adoram citar pra descer o cacete no nacionalismo negro. A palavra AFROCENTRADO é uma invenção de Nkrumah!

São caminhos teóricos, minha gente, não são igrejas! E com o avanço dos estudos da afrocentricidade (proposta de Nkrumah desenvolvida por Asante!) chegou-se a conclusão de que o marxismo e seus derivados não dariam conta de resolver as demandas do povo negro. Também com o avanço dos estudos da afrocentricidade, chegou-se à conclusão que o feminismo não daria conta de resolver as questões das mulheres pretas devido as diferenças de berços civilizatórios que o Diop apontou (e que a Lélia Gonzalez estava traduzindo) . Cleonora Hudson, então, sistematiza o mulherismo africana e apesar de dizerem que se trata de invenção norte-americana a primeira conferência mundial de mulherismo africana foi no ZIMBÁBUE.

Por tudo isso, convoco a todos nós assumirmos a responsabilidade no legado dos nossos teóricos pretos e pretas. E isso é importante, família, porque hoje tem feminista preta batendo no peito dizendo que é brasileira com muito orgulho com muito amor achando que isso é uma resposta ao mulherismo africana quando essa pessoa está, antes de mais nada, metendo areia no trabalho de Lélia González.

Larga os blogs. Larga os livros dos brancos. LEIA O POVO PRETO! Coma livro preto! Livro, não só artigo. Livro, não só slide. LIVRO PRETO.

A nossa emancipação também perpassa por isso. Beijos e bom final de semana.

Abdias-e-Lélia-Gonzalez

____________
(1) Ver a biografia de Lélia escrita por Ales Ratts e Flávia Rios;
(2) Ver livro “Discurso sobre a negritude” de Aimé Cesaire (na parte final tem uma lista de participantes do evento e dentre os nomes está o de Lélia Gonzalez)

O artigo está aqui: https://www.google.com.br/url…

Na foto: Abdias e Lélia

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4 comentários sobre “LÉLIA GONZALEZ E O PAN-AFRICANISMO

  1. Gilza, antes de mais nada preciso lhe agradecer por compartilhar tanto conosco. Venho fazer um pedido, sou recém formada em gastronomia (estou para ver curso mais eurocêntrico) e nada (muito pouco) sei sobre hábitos alimentares afrikana, não leio em ingles, e talvez seja por isso que não obtive sucesso em minhas pesquisas, eis meu pedido, você conhece algum material que possa por luz sobre a minha pesquisa na gastronomia em África?

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    1. Eita irmã, que difícil! Talvez seja mais fácil começar pelos terreiros, o que você acha? Comida de axé, comida baiana (são algumas ideias…). Não me vem nenhum livro na cabeça especificamente sobre gastronomia africana.

      O eurocentrismo é terrível. As comidas mais gostosas desse mundo é a gente que faz! Rsrsrs… espero ter contribuído de alguma forma!

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  2. Oi Anin! Sai do facebook para dar uma desintoxicada e uma das coisas que mais sinto falta são suas postagens. Mas, também por isso, foi bom ter saído, assim leio suas contribuições aqui pelo blog que ainda contam com referencias maravilhosas como esse texto da Lélia.
    Na verdade vim parar aqui porque hoje estava participando de uma discussão sobre a possibilidade criar resistências e linhas de fuga dentro da língua dominante. Daí em algum momento disseram que no caso do Brasil não haveria essa possibilidade de fuga porque todo mundo fala português, não é como em outros países que além da língua oficial há outras sendo faladas. Daí eu lembrei do pretuguês da Lélia e disse que a coisa não era bem assim mas, como não tinha muita referencia vim aqui caçar. Achei muito interessante como essa percepção do pretugues se dá dentro desta proposta da Améfrica/América Ladina. Enfim, estamos em campos teóricos muito diferentes mas sempre aprendo muito contigo Anin!!

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    1. Ô, irmã, que mensagem bacana! Vamos a-prendendo umas com as outras sim.

      Outra questão que podemos analiar além do pretuguês é como mantemos palavras africanas no português e como os terreiros mantém as línguas bantu, fon e iorubá em seus cultos! Nem tudo está perdido!

      Ainda, nada nos impede de aprender, não é? Ou de colocar nossas crianças num curso de língua africana…

      Bom, é isso…vamos mantendo contato! Axé pra nós!

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