SOBRE POLIGAMIA – PARTE 1 (ou: chegou a hora de enfrentar esse debate africanamente)

Inicio esse texto fazendo algumas apresentações conceituais básicas. A primeira é dizer que poligamia NÃO É sinônimo de poliamor, amor livre, ménage, relação aberta, swing ou qualquer coisa que o valha. O que diferencia a poligamia dessas outras “nomenclaturas” é o seu foco na construção familiar e fortalecimento de um povo (o que é muito diferente de satisfação de um prazer hedonista individual.). Portanto, a poligamia é um modelo de casamento tipicamente AFRICANO, um modelo MILENAR de família, com foco na expansão COMUNITÁRIA e fortalecimento DE UM POVO. O tal “poliamor” e seus congêneres são criações eurocentricas recentes e remontam a um povo que só descobriu o corpo no século XX. (Alias, não é à toa que em geral somos mais abertos ao “poliamor” do que à “poligamia”. Somos levados a odiar tudo o que é africano). Tendo feito essa primeira diferenciação, vamos aos tipos de poligamia.

Existem três tipos de poligamia: poliginia, poliandria e poligamia grupal. Poliginia = 1 homem várias mulheres; poliandria = 1 mulher vários homens; Poligamia grupal = vários homens e várias mulheres (atenção: estou falando da criação de FAMÍLIAS e não de suruba). Todos os 3 tipos são encontrados em África.

Apesar de todos os 3 tipos de poligamia serem encontrados em África, a poliginia (1 homem + várias mulheres) é disparadamente a majoritária (uns 96%?), seguida da poliandria e da poligamia grupal. Além dos erros comuns que colocam a poligamia como sinônimo de poliamor, ou poligamia como sinônimo de poliginia, há a comum interpretação “poliginia é machismo”. Como optei por analisar os nossos fenômenos a partir de uma visão africana, vamos ver o que diferencia a poliginia da poliandria começando por essa última.

A poliandria (1 mulher vários homens), ocorre em contextos africanos em que o número de homens é maior que o número de mulheres (o que é bem lógico). Um exemplo típico é o Quilombo de Palmares (Clovis Moura descreve a poliandria palmarina). Precisamos lembrar que na primeira fase da escravização, a maior parte de nosso povo escravizado era composta por homens (alguns autores falam de uma relação de 1 mulher para 7 a 10 homens). Assim, as mulheres palmarinas tinham vários maridos não pelo motivo de “quero me esbaldar” mas por um fator social (veja: o foco não é o “eu” mas as condições do meu povo. Confere? Portanto não há lógica falar em poliandria num contexto onde homens são minoria só porque “eu quero”, confere? Podemos querer muitas coisas, sim. Mas esse querer é um querer egoísta ou pensando em termos de povo? Num contexto onde há mais mulheres que homens, se eu me caso com 4 deles eu tô pensando nas minhas irmãs?)

Em termos de origem, entretanto, Diop nos ensina que a poliandria é tradicionalmente BRANCA, EUROPEIA. E isso tem um motivo: numa sociedade PATRIARCAL, quanto MENOS mulheres eu inserir no grupo social MELHOR. A mulher é tida como um fardo. Assim, na poliandria do povo (branco) celta, por exemplo, 1 mulher tinha que dar conta de 10, 12 homens, irmãos entre si, pai e filho, novo, velho, não interessa. A mulher TINHA QUE estar disponível para vários homens. Esses homens disputavam entre si violentamente (lembram dos filmes de duelo onde a mocinha branca não opina e fica esperando o resultado do bang bang ? Pois é.). Além disso, numa poliandria não é possível saber quem é o pai da criança, o que desresponsabiliza os homens e pode levar a incestos sem que as pessoas tenham controle. Assim, dizer “poliginia é machismo, quero vários homens” não tem lógica nenhuma. É justamente o contrário.

Dito isso, é muito óbvio pensar que se em contextos patriarcais a poliandria predomina, em contextos africanos (logo, matriarcais) o predomínio é da poliginia. (Chamo atenção pra esse ponto: nossos ancestrais são tipicamente poligâmicos. Aliás, as diversas formas de poliginia africana foram usadas pelos colonizadores como exemplo do nosso primitivismo e promiscuidade. Desconfie de qualquer pessoa ou teoria que diga que o que os seus ancestrais fizeram largamente é errado. Isso tem nome: colonização).

Muito menos que mulheres se degladiando por um homem ou um homem oprimindo várias mulheres, na poliginia É A PRIMEIRA ESPOSA que define SE esse homem deve ter uma segunda, terceira ou quarta esposa (geralmente só vai até aí). Se a primeira esposa NÃO QUISER, não tem poligamia. Não é o homem que decide sozinho. É a matriarca. (Pelo menos é isso o que manda a tradição. Se as pessoas no seu cotidiano desrespeitam a tradição – e elas desrespeitam – aí já é outra discussão). Em muitos contextos, é a primeira esposa que ESCOLHE quem será a segunda (sim, escolha, porque na perspectiva africana amor não é aquele fogo inconsequente que a gente sente quando se apaixona no primeiro dia, mas uma construção que se dá ao longo de muitos anos). Cabe ainda à primeira esposa organizar, por exemplo o revezamento do marido: 1 semana com cada esposa? 3 dias com cada esposa? 1 dia com cada esposa? (varia a depender do povo em questão tb). É óbvio que a primeira esposa não é (ou não deveria ser) uma manda-chuva autoritária. De uma maneira geral acaba sendo um consenso. Mas existe uma liderança. E ela é feminina. (Por isso, minha irmã, se o pretinho tá insistindo em poligamia nos primeiros meses de namoro com o argumento de “sou poligâmico”, sai de baixo. Poligamia é constituição familiar. Projeto de vida. Compromisso. Não oba-oba amor livre.)

Numa poliginia, ainda, (e eu não tenho pretensão de ser imparcial, eu estou aqui para defendê-la em especial das deturpações ocidentais), as esposas são chamadas entre si de “co-esposas”, “co-irmãs”, ou seja, não é uma disputa de homem, são companheiras que decidem caminhar juntas na construção de uma família dividindo a casa, os recursos, o trabalho E o marido. Não são vítimas do julgo do homem, exploradas pelo patriarcado, coitadas sem escolhas ou desesperadas pela falta de homem, mas mulheres com agência que concordaram em construir uma vida em conjunto dividindo várias coisas inclusive o marido. Ainda: de uma maneira geral, as sociedades tem mais mulheres que homens (e até a biologia explica porque nascem mais meninas que meninos). Assim a poliginia contrabalanceia um fato social. Simples assim. (Eu costumo dizer que a África é muito lógica, sincera e prática).

Vou encerrar a primeira parte do texto pra não ficar muito grande (já ficou) mas deixo uma provocação final pra gente pensar. Todos nós conhecemos várias pessoas pretas (homens e mulheres) que passaram um período da sua vida como “amantes” ou tendo amantes. Muitos envelhecem solteiros nessa condição. Por que assumir uma relação plural é tão escandaloso quando, nos quartos de motéis, traimos uns aos outros?

Segura aí que vem a segunda parte. África no centro, família!

____________________

“Uma segunda esposa entra na família como em qualquer outro casamento. Muitas mulheres escolhem isso para trazer mais energia feminina para a casa e torná-la mais alegre. Minha tia escolheu ter várias outras mulheres com ela. Isso não é considerado como perversão. É uma atitude que a mulher toma quando se sente alegre em seu relacionamento e quer trazer outras mulheres para dividir essa alegria com ela”.

(Sobonfu Somé no livro “O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar”).

poligamia

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19 comentários sobre “SOBRE POLIGAMIA – PARTE 1 (ou: chegou a hora de enfrentar esse debate africanamente)

  1. obrigada pelo post! ando muito interessada . obrigada

    Em 30 de maio de 2017 11:00, pensamentosmulheristas escreveu:

    > Gilza Marques posted: “Inicio esse texto fazendo algumas apresentações > conceituais básicas. A primeira é dizer que poligamia NÃO É sinônimo de > poliamor, amor livre, ménage, relação aberta, swing ou qualquer coisa que o > valha. O que diferencia a poligamia dessas outras “nomencla” >

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  2. Aguardei ansiosamente por esse texto. Aguardo ansiosamente a segunda parte.
    Você podia escrever um livro compartilhando o que você vem aprendendo com Áfrika, não? hahaha ia ser incrível!
    Obrigada mais uma vez por compartilhar com a gente seu conhecimento.
    Beijo grande.

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  3. Anin, gostaria de saber onde você fez o seu teste de DNA pra saber as suas origens, procurei aqui no blog, mas não encontrei a informação. Obrigada desde já!

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    1. Oi, irmã! Eu fiz numa clínica de geneticistas pretos dos EUA chamada African Ancestry. Você compra pelo site e eles mandam as instruções e o kit de coleta de saliva pra sua casa. Depois vc reenvia e aguarda o resultado.

      Veja no site: africanancestry.com

      Boa sorte!

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  4. Olá querida Anin, falei de vc HOJE e esse assunto foi tocado…como não tenho 1% do seu conhecimento no assunto num pude falar sobre tal tão bem quando vc…achei MUITO bom…e fiquei aqui pensando muito sobre minhas escolhas…meus traumas…meus medos…e minhas “certezas” e “dúvidas”…eu não quero constituir família, nada contra, mas já sou complicado demais, fragmentado demais, para colocar alguém nesse mundo, no meu mundo e de outra pessoa…mas parabéns…esses abraços de hoje são 100% “concordantes”, coloco entre aspas porque a verdade absoluta pra mim é um miste´rio, mas na sua explanação eu achei super coerente e concordei!

    Tava com saudades dos textos…

    Ps.: Quando tiver em Salvador me diga…vai ser uma prosa bem vinda!

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    1. Agradeço, irmão! Uma honra trocar esse abraço e essas palavras por aqui! ❤

      Respeite sua escolha, mas pense direitinho com relação a essa questão da família! Todos estamos fragmentados. Um filho nos edifica! Ademais, crianças são nossos ancestrais reencarnados.

      Axé pra nós!

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    1. Nossa, estou com uma dificuldade terrível de escrever porque depende de uma série de instituições que não existem aqui na diáspora e eu teria que explicar cada uma e o texto ficaria enorme! Conselho de anciãos, grupo etário, dote… travei geral! Rsrsrs…

      Mas vou retomar a calma pra poder escrever a segunda parte. Assim espero! Rsrsrs…

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  5. Oi Anin, saudades do seu textos…pra fundir minha cuca, abrir minha mente…trazer concordâncias e “discordâncias”…

    lembre de vc por isso:

    Livro de Buchi Emecheta lançado pela primeira vez no Brasil…minha sogra pegou…tou com vontade de ler…cheio de coisa aqui, no meio de um, fiquei curioso mesmo pra ler…dei uma rápida olhada e achei muito bem escrito…a edição é linda tb.

    Abraços!

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  6. Bom dia. Sou Yanne, aluna do 4° período do curso de Serviço Social da UFRJ. No dia 12/12 apresentaremos um trabalho da disciplina de Identidades Culturais sobre o Movimento Negro. Gostaria de saber se você pode responder (por email) a questões acerca do Movimento Negro, com foco no Mulherismo Africana. Desculpa o incomo e obrigada de qualquer forma.
    Meu email: yanne.qguimaraes@gmail.com

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