1 ano de puerpério

Escrevi um relato de parto que eu nunca publiquei. Ninguém nunca me disse, mas fiquei com a sensação de que isso revelaria muito do meu destino. Porque é o grande momento da abertura do portal né? A grande passagem ọrùn – aiye. Preferi não publicar.

Se eu pudesse comparar o parto com algum outro momento da minha vida, compararia com a iniciação no candomblé. Aliás, parir me fez entender muito mais a minha iniciação e todo o preceito. A iniciação, em contrapartida, me fez entender muito mais o que é o parto e o resguardo. Depois de passar por esses 2 portais, nunca mais fui a mesma.

Eu parí de um parto normal. Parí em pé. Se eu fechar os olhos, posso reviver todo aquele momento inclusive sensorialmente. Desde estão me sinto uma mulher muito mais forte e potente e isso virou até um jargão pessoal frente a alguma dificuldade: “eu me ajoelhei para em seguida levantar e parir em pé, cara. Depois disso eu posso qualquer coisa.”

Completei 1 ano de parida. Dizem as parteiras antigas que o puerpério de fato só finda agora, e eu acredito. Há um ano coloquei meu corpo à prova pra trazer uma ancestral de volta ao mundo a fim de dar pra ela uma vida melhor do que das gerações anteriores. Entendi que uma das maiores missões que pessoas pretas com um pouco mais de acesso devem ter é criar uma geração com mais nitidez de propósito, métodos ancestrais adaptados à nossa realidade e bases culturais sólidas. Só assim a gente vai conseguir romper com um monte de problema transgeracional que exímios militantes insistem em perpetuar em suas próprias famílias transferindo toda a responsabilidade para o estado branco (com todo respeito e franqueza).

Foi na gravidez que eu mais senti falta da cultura tradicional africana. A fragmentação ocidental da vida me pegou em cheio e eu usei tudo o que estudei e retomei nos últimos anos pra tentar fazer escolhas mais acertadas: como eu poderia permitir, por exemplo, que a placenta de minha filha fosse enterrada num cemitério junto com dezenas de outras placentas e bebês natimortos? Ou incinerada em meio a dezenas de outros “resíduos”?

Qual o impacto disso? E que “práticas ancestrais” é essa que estão inventando e vendendo por aí? Desde quando meu povo bebe placenta crua batida no liquidificador?


Mudei muito. Minha prioridades mudaram completamente. Hoje eu considero inclusive que muito do que fiz em termos de “militância” foi puro desperdício de tempo, dinheiro e àṣẹ. Entendi no corpo porque a tradição africana é matriarcal. Porque matriarcado não é o oposto de patriarcado. E porque estamos como estamos.


Discordei de quase tudo o que li sobre parto e maternidade ( inclusive entre as ditas defensoras do parto humanizado), perdi a paciencia com grupos de gestantes, mães, enfermeiras obstétrica e doulas. Nesse caminho, entretanto, foi bom demais me conectar com mulheres pretas que aceitaram o desafio de um Sankofa tortuoso, dolorido e absolutamente satisfatório – na maternidade também, mas não só. Não vou marca-las aqui pois posso esquecer de alguém, mas é bom demais aprender com vocês, irmãs.
Sigo aqui à disposição pra trocar experiências, pensamentos e devaneios. Às agudás da tradição, desejo que sigamos fazendo o nosso trabalho excepcional. Como diz o provérbio africano: “a mão que balança o berço, governa uma nação”.

Fifamê ye, mo ye!

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